domingo, março 15, 2009

«A História Recente do Concelho de S. Vicente» - Dr. Alberto Vieira

De acordo com plano estabelecido em 1989 o Centro de Estudos de História do Atlântico decidiu avançar com um projecto de investigação sobre a História dos Municípios da Madeira. A ideia era envolver a sociedade civil e política com o passado histórico no sentido da valorização deste último com benefício evidente para todos. Entretanto, foram muitos os entraves que se colocaram, por elementos estranhos, à prossecução deste projecto que fizeram surgir algumas falsas imitações.
Hoje, passados mais de oito anos, não podemos considerar que o projecto tenha sido um logro, como afirmam certos sectores menos informadores que pululam no nosso meio cultural, isto é, os profetas da desgraça e do proveito próprio. Senão vejamos. Em 1994, aproveitando-se a comemoração dos quatrocentos e cinquenta anos da criação do concelho, publicou-se um volume que se apresentou já como uma amostra do projecto em marcha. No ano passado surgiu novo volume: Roteiro para uma visita e descoberta do concelho de S. Vicente. E agora fazemos todo o nosso esforço para que este novo volume seja dado à luz do dia. Afinal, a ambição de apenas um volume suplantou as nossas próprias expectativas e eis-nos agora com três e a esperança de que outros mais textos se seguirão. A história nunca deve ser considerada como um processo acabado, mas algo em permanente construção. Afinal a síntese em História não se faz do nada, mas sim a partir destes estudos parcelares que se torna possível do "puzzle" tão difícil de reconstrução do nosso discurso histórico.
S.Vicente um século de vida Municipal (1868-1974) foi um projecto ambicioso, pois pela primeira vez que se fezz uma abordagem da evolução do município num dos períodos mais recentes e conturbados da nossa História. São mais de cem anos recheados de múltiplos acontecimentos que marcaram de forma evidente a nossa contemporaneidade. Mas será que o eco disso se fez sentir nas estas encontas perdidas do norte da ilha ? Os vicentinos alhearam-se da política e agarraram-se à terra ou, pelo contrário, souberam fazer valer os seus interesses nos momentos de maior dificuldade ? Os tumultos de 1868 ou 1924 deverão ser entendidos como manifestações avulsas de um povo desordeiro ou antes a expressão de quem sabe o quer ? A estas e muitas mais questões, que pululam na mente de muitos de nós, espectadores presenciais ou por memórias orais e escritas.
Aqui, a História terminou há pouco mais de vinte anos. O vinte e cinco de Abril de 1974 inaugurou uma nova realidade que ainda é muito cedo para passar às páginas desta memória histórica. São inúmeros os protagonistas vivos. Mas será que a sua experiência, por mais lúcida que seja, permitirá entender esse processo ?. Quantas vezes nos envolvemos numa situação e fechamos olhos a tudo o que nos cerca. Certamente que a posição de afastamento poderá muitas vezes favorecer uma leitura desapaixonada e desencravar outra realidade ou então uma diferente leitura. É a oportunidade de conciliação com o nosso passado e de catarse.
São cinquenta e oito anos de conturbada vida política seguidos de outros quarenta e oito de regime ditatorial, definido pela omnipresença de um só grupo político, de um único modo de ver e moldar a realidade política. No total são cento e seis anos da nossa História Contemporânea recente. A razão de ter como ponto de partida o ano de
1868 prende-se com o facto de neste ano terem ocorrido alguns acontecimentos que ficaram a marcar de forma indelével a História do Concelho. A 12 de Abril de 1868 ocorreram tumultos na Vila de S. Vicente que levaram à total destruição de todos os documentos existentes no Arquivo Municipal, apagando-se desta forma a memória histórica do concelho. Face a esta situação torna-se difícil reconstituir o passado histórico do concelho entre 1744 e 1868. Os dados são avulsos e devem ser encontrados, qual agulha em palheiro, nos acervos documentais dos concelhos vizinhos, ou nos referentes aos fundos dos governadores gerais ou civis.
Traçar o quotidiano do município através das actas da vereação é um projecto arriscado, pois sujeitamo-nos ao empenho ou não daqueles que de forma directa actuaram para fazer passar aos vindouros uma certa realidade. Nem tudo o que acontece no concelho tem debate obrigatório na sessão camarária e muitas das questões mais pertinentes dissolvem-se no diálogo quotidiano não institucional. Analisados os cento e seis anos de vida municipal conclui-se que essa realidade dependerá sempre dos seus intervenientes, mas de modo especial ao presidente, que dirige os trabalhos, e ao escrivão ou outro qualquer a quem seja acometida a tarefa de redigir as actas. São eles o espelho duma realidade que hoje apenas se mantem na memória de alguns.
O discurso indirecto nem sempre obedece aos requesitos e exigências do historiador. A opinião, o debate são falsas realidades nesta tribuna que deveria viver disso mesmo. Perante nós desfilam páginas e páginas de sessões, ou de transcrição sumária de petições, ofícios e requerimentos. A unanimidade parece ser a palavra de ordem nos últimos cinquenta anos.
Foi nossa intenção reconstitiur essas ambiências que dominaram o passado recente da História do Concelho. A intervenção do concelho é nesta altura cada vez mais abrangente e é isso que reflectem as suas actas. Pela mesa das sessões, por intervenção directa dos municípes ou dos vereadores, passam não só os problemas do dia a dia do concelho, mas também as ambições de um progressivo desenvolvimento do concelho.
Aqui olha-se para o presente mas também para o futuro. Serão os projectos de uma adequada rede viária, de instalações adequadas para as repartições públicas e para a progressiva valorização das suas gentes com um plano adequado de escolas. A realidade de hoje evidencia que esta luta não foi inglória. O progresso sempre presente na mira da vida municipal é hoje algo evidente porque os nossos avoengos lutaram por isto nestes últimos cem anos.
Os caminhos do presente delineiam-se no passado, mas os do futuro tem por palco o momento presente. Neste contexto é a rede viária que ontem como hoje traçará esse rumo. Em 1914 a ligação do norte ao sul abriu uma nova era na História do Norte da Ilha. Agora que se avizinham novos projectos será de ambicionar por uma nova mudança, a esperança dos políticos, mas acima de tudo das populações.E esperamos no final do século poder testemunhar esta realidade.
A seu tempo surgirá a segunda parte em que se fará eco das realizações emanentes do processo iniciado em 1974. Os vinte e cinco anos são tão ricos em realizações,
debates políticos e activa intervenção das gentes, que legitimam o novo processo político.

PORTUGAL E OS ESTRANGEIROS - Manuel Gomes Branco

Branco , Manuel Gomes – PORTUGAL E OS ESTRANGEIROS ,  Lisboa: Livraria A. M. Pereira, Imprensa Nacional, 1879-1895. 5 volumes.  In...