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sexta-feira, abril 17, 2009

«Discurso de Posse» - José Mindlin (2006)


Discurso de Posse

Senhor Presidente, senhoras e senhores acadêmicos, minhas senhoras e meus senhores. Meu querido amigo acadêmico Alberto da Costa e Silva, que gentilmente se dispôs a me receber nesta noite. Seja-me permitido, antes de mais nada, evocar a figura de Guita Mindlin, minha mulher e querida companheira de quase 70 anos. Ela participou do festejo de minha eleição no dia 21 de junho, aqui no Rio, mas o destino trouxe um contraste entre uma grande alegria e uma tristeza profunda, arrebatando-a de nós poucos dias depois. Não podia deixar de lhe render esta lembrança saudosa.
Um discurso de posse na Academia Brasileira de Letras envolve uma grande responsabilidade, qual seja, satisfazer a expectativa de um texto que, de certo modo, justifique a eleição do novo acadêmico. Quando, em 1979, recebi o Prêmio João Ribeiro outorgado pela Academia como reconhecimento de atividades intelectuais, não podia nem de longe imaginar que, passadas quase três décadas, estaria falando, talvez até da mesma tribuna, sobre o prêmio maior, que é o de passar a pertencer ao quadro dos acadêmicos.
Devo, naturalmente, de início, agradecer às senhoras e senhores acadêmicos a generosidade do irrecusável convite que recebi de alguns deles para me candidatar ao preenchimento da vaga da Cadeira 29 e, em seguida, pelo carinhoso acolhimento com que minha candidatura foi referendada por expressiva votação. A tradição da Academia é que o novo membro, ao ingressar no quadro social, faça o elogio ou referências aos seus antecessores. Essa tradição vem da origem de formação da Academia Brasileira de Letras que seguiu o modelo da Academia Francesa, onde esse tema constitui o principal requisito. Poderia segui-lo, tanto mais que foram muito poucos os meus predecessores, a começar pelo patrono Martins Pena e pelos acadêmicos Arthur Azevedo, Vicente de Carvalho, Cláudio de Sousa e, finalmente, o saudoso acadêmico Josué Montello.
Pareceu-me, entretanto, que isso não seria suficiente, e em conversa com o grande crítico e meu grande amigo Antonio Candido, a quem disse que queria tratar de um tema mais amplo, ele não só concordou comigo, como me lembrou o precedente deixado por Buffon, o grande naturalista francês que, ao tomar posse de uma cadeira na Academia Francesa no século XVIII, resolveu tratar em seu discurso apenas de um tema completamente estranho à tradição, fazendo uma conferência sobre o Estilo, da qual a frase lapidar “o estilo é o homem” permanece até hoje como profunda verdade. Buffon não chegou a falar sobre seus predecessores, mas eu não vou tão longe, pois falar dos que me precederam é não apenas um dever de gratidão, como atende a uma preferência pessoal minha. Depois disso, no entanto, minha proposta resultante da conversa com Antonio Candido foi de convidar a audiência, parodiando o velho Xavier de Maitre, a uma viagem em torno de minhas atividades culturais e da Biblioteca, que está completando 79 anos de formação neste ano. Espero que a exposição que daí surgir seja do agrado dos que me estão ouvindo. Coisa semelhante foi feita, de certo modo, pelo novo acadêmico Nelson Pereira dos Santos, que concentrou no cinema a maior parte de seu discurso. A razão de minha idéia é o pressuposto de que o meu amor de vida inteira à leitura e ao livro tenha sido uma das razões que levaram as senhoras e senhores acadêmicos a me eleger. Antes disso, no entanto, vamos olhar um pouco para o passado da Cadeira 29 que neste momento estou passando a ocupar.
Creio que é importante assinalar que as obras, tanto de Martins Penna, patrono da Cadeira 29, como as de Arthur Azevedo, seu primeiro ocupante, foram leituras que me encantaram em minha remota mocidade e, até hoje, uma releitura é sempre fonte de prazer. Não vou me deter na enumeração e análise de suas obras, assim como das de meus outros predecessores, porque isso já foi objeto não só de muitos discursos acadêmicos, como de grande número de estudos literários que meus ouvintes certamente conhecem. Vicente de Carvalho foi um grande poeta paulista, hoje injustamente menos lido e ouvido, mas que inegavelmente é um dos grandes nomes da poesia brasileira. Cheguei a saber de cor um grande poema seu, “Palavras ao Mar”, e “O Pequenino Morto”, do qual possuo, aliás, o original manuscrito autógrafo publicado em 1904 pelo jornal O Estado de S. Paulo, que alegando não publicar poesia, abriu exceção para o primoroso “Pequenino Morto”, que só foi incluído em livro em 1908, na primeira edição de Poemas e Canções. A tendência de diminuir a importância do Parnasianismo me parece um grande equívoco, pois não foram poucos os poetas que o engrandeceram. O falecimento de Vicente de Carvalho deu lugar à eleição de Cláudio de Sousa, escritor e teatrólogo que teve grande voga na primeira metade do século passado. Uma de suas obras – De Paris ao Oriente – teve uma particularidade curiosa: foi a narrativa de uma viagem que Cláudio de Sousa fez ao Oriente, em companhia de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. Este se inspirou, com sua irreprimível irreverência, na pessoa de Cláudio de Sousa quando escreveu Serafim Ponte Grande.
Também de Josué Montello parece-me desnecessário enumerar e/ou analisar suas obras que ainda estão muito vivas no interesse do público literário. Tive com ele vários encontros cordiais, nos quais descobri em Josué Montello o erudito bibliófilo e, como acontece nas conversas entre bibliófilos, ele me falava de manuscritos que possuía, deixando-me com água na boca, e que eu procurava compensar com outros de nossa Biblioteca que faltavam na dele, e quem ficava com água na boca nessas ocasiões era ele e não eu. No entanto, o mais importante nos contatos que tive com Josué Montello foi descobrir nossas grandes afinidades literárias, pois ele tinha ilimitada admiração pelos Ensaios de Montaigne que foram também, através da vida, uma de minhas leituras favoritas, tanto assim que uma filha minha, Diana, arquiteta que se dedica às artes gráficas, me fez a surpresa de desenhar meu ex-libris tendo como divisa a frase de Montaigne do capítulo sobre os livros: “Je ne fay rien sans gayeté”. Nem sempre é possível fazer tudo com alegria, mas pelo menos procuro percorrer sempre esta trilha. Um dos orgulhos da Biblioteca é, aliás, a primeira edição completa dos Ensaios, incluindo pela primeira vez o terceiro livro, publicada em Lyon, em 1588. Não foi apenas em Montaigne, entretanto, que nossos caminhos se cruzaram. Houve inúmeros outros, como Stendhal e Flaubert e diria que, principalmente, com Marcel Proust, autor que até hoje me seduz, desde os anos 40, quando li pela primeira vez sua obra fundamental A la Recherche du Temps Perdu. Já a li cinco vezes, com 10 anos de intervalo entre cada leitura, e todas elas trazem descoberta e deleite. Falar de Josué Montello apenas mencionando suas obras seria uma injustiça, pois suas preferências literárias devem tê-lo, certamente, influenciado. Não sei se seria o escritor que foi se não tivesse lido a obra dos autores em que nossos interesses coincidiram.
Vamos agora, se meus ouvintes concordarem, à viagem em torno da Biblioteca e de meus interesses culturais.
Tendo tido o privilégio de crescer num ambiente cultural, meus pais e irmãos mais velhos lendo permanentemente, passei também a ler as obras chamadas “sérias” depois das leituras infantis, começando com as Lendas e Narrativas, O Monge de Cister e O Bobo, de Alexandre Herculano, aos 12 anos de idade. Foi ele o primeiro autor que criou em mim o gosto pela literatura de ficção. Esta foi uma das vertentes de minhas leituras que continua viva até hoje. Duas outras vertentes são a História, principalmente a História do Brasil, e o gosto pelos autores clássicos que me levou à paixão pelo livro raro. São, pois, três vertentes que constituíram o fulcro da Biblioteca que vim a formar através da vida. Curiosamente, esses interesses se definiram muito cedo, pela ficção literária aos doze anos de idade, pois na mesma ocasião li O Ateneu, de Raul Pompéia, e as duas outras aos 13 anos, puramente por acaso. O acaso teve, aliás, um papel extremamente importante em tudo e para tudo que me aconteceu na vida.
Aos 13 anos, quando comecei a freqüentar os sebos de São Paulo, encontrei uma edição portuguesa do Discurso sobre a História Universal, de Bossuet, publicado em Coimbra, em 1740, data que me fascinou. Foi a semente da busca de livros raros, embora mais tarde tivesse aprendido que a data das edições é um elemento secundário em sua importância. Mas a semente foi Bossuet, que floresceu e cresceu muito além do que eu poderia ter imaginado. No mesmo ano recebi de presente de aniversário um exemplar da História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador, o grande cronista do século XVII que detonou meu interesse pelos estudos brasileiros. Era uma edição simples, comercial, da Companhia Melhoramentos, mas muito comentada e trazendo uma considerável bibliografia de obras sobre História do Brasil. Ingenuamente, procurei consegui-las naquela época, mas já eram todas raras e de acesso difícil. Mesmo assim fui, aos poucos, conseguindo exemplares, e hoje a maior parte das obras constantes daquela edição de Frei Vicente se encontram na Biblioteca.
Uma facilidade que tive foi de ler indistintamente em português e francês, que aprendi aos seis anos de idade e se tornou meu segundo idioma e, a partir dos 15 anos, também o inglês. Italiano e espanhol vieram depois, sem maiores problemas.
A partir desse início inesperado, surgiu o processo de formação da Biblioteca sem que, no entanto, ela tivesse sido planejada. Cresceu ao sabor de minhas leituras e a leitura continuou sendo o fulcro e a razão de ser de sua existência. Para seu crescimento, no entanto, foi importante que ela se tivesse tornado um interesse central de vida. Exigiu a leitura de obras de referência sobre a história literária brasileira e estrangeira, leitura de catálogos e na, base disso, o exercício da garimpagem. Os livros não caem do céu: a gente os procura e, coincidentemente e principalmente em matéria de livros raros, eles também nos procuram. A aventura da garimpagem provoca, mesmo em céticos como eu, a suspeita de que alguma coisa sobrenatural possa estar protegendo as buscas do leitor apaixonado. Chego a pensar que embora a leitura seja uma fonte inesgotável de prazer, a garimpagem provoca um prazer diferente, às vezes superior ao outro. Quando se encontra uma obra procurada durante décadas, o coração bate mais forte (felizmente o livreiro antiquário não percebe esse batimento cardíaco...), ao passo que depois de adquirido o livro, já acomodado na estante, seu manuseio e leitura proporcionam prazer, mas a emoção propriamente dita deixa de existir ou não é a mesma.
São numerosos os casos que evidenciam a existência do fator sorte, além do conhecimento. Se os que me ouvem tiverem um pouco de paciência, poderia dar alguns exemplos dentre muitos, em que se pode ter idéia do que representa a atração da garimpagem. Quando chego numa cidade estrangeira, uma das primeiras coisas que faço é procurar nas páginas amarelas os principais livreiros antiquários. Certa vez, em Santiago do Chile, onde só encontrei o nome de um antiquário, fui procurá-lo, mas esbarrei na porta fechada. Voltei mais tarde, e vendo uma pessoa dentro da livraria, fui abrindo a porta de vidro quando o livreiro me barrou: “Estamos en vacaciones”. “Yo también”, respondi. E isso estabeleceu logo uma relação informal. Perguntei se tinha obras sobre o Brasil, mas ele me disse que a especialidade da livraria era literatura e teatro francês, nada tendo sobre o Brasil. Enquanto falávamos, no entanto, vi numa das prateleiras do alto A Arte da Língua Guarani, do Padre Montoya, e disse ao livreiro que aquilo era uma coisa de interesse brasileiro. “Isso”, disse ele, “é o resto da biblioteca de um historiador brasileiro que comprei há muito tempo, um tal de Porto”. “Porto Seguro?”, perguntei eu. O que ele confirmou. “E onde estão esses livros?” “Num depósito, mas não dá para ver agora nas férias”. Sem perder a coragem, insisti e acabei conseguindo marcar uma visita ao depósito no dia seguinte, onde se achavam os livros que Francisco Adolpho de Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro, tinha em seu escritório quando faleceu em Viena em 1878. Sua biblioteca tinha ido para o Itamaraty, mas os papéis e livros mais próximos dele foram levados para Santiago por sua viúva, que era chilena. Ali encontrei coisas preciosas, como provas de folhetos corrigidas por ele e que tinham permanecido inéditas, e a segunda edição da História do Brasil com numerosas alterações manuscritas que não figuram nas edições subseqüentes. Um manancial, enfim, dos tais de fazer o coração bater mais forte.
Outra coisa se deu em Paris, em 1946, para onde eu tinha ido formar o estoque de uma livraria de livros raros que um amigo meu, também bibliófilo, me propusera abrir. Inicialmente, ao receber a proposta, eu tinha dito que interessante seria, mas inviável, pois nem ele nem eu tínhamos o dinheiro necessário, ao que ele esclareceu que um primo dele se dispusera a entrar no empreendimento com 500 contos de réis, o que mudou o quadro completamente. Lá fui eu passar 3 meses na Europa comprando livros escolhidos um a um. Dediquei-me especialmente à vertente brasileira, mas trouxe assim mesmo coisas importantes de literatura estrangeira, como a primeira edição ilustrada dos Triunfos, de Petrarca, publicada em Veneza em 1488, ou a Crônica de Nuremberg, publicada em 1493. Mas eu queria especialmente trazer um exemplar da Viagem pitoresca, de Debret. Acontece que havia muitos brasileiros em Paris pois, além de tudo, estava em curso a Conferência da Paz. E quando se entrava numa livraria pedindo livro sobre o Brasil, a resposta invariável era ou que nunca tiveram nada, ou que o que possuíam tinha sido vendido. Assim mesmo, na Rue Bonaparte, resolvi entrar numa livraria, embora na vitrine só houvesse obras estrangeiras. À minha pergunta sobre a existência de obras sobre o Brasil, o livreiro disse que provavelmente eu só estava interessado em obras importantes, mas aí não tinha nada para oferecer. Assim mesmo pedi que mostrasse o que tinha e ele me deixou por uns 15 minutos no escritório, voltando com uns quinze ou vinte livros empilhados sobre os três grandes volumes do exemplar de Debret. Eu estava disposto a pagar, o que naquela época era substancial, 150.000 francos. Mas quando vi o exemplar e perguntei quanto ele pedia, fui surpreendido com uma declaração categórica: “Esta obra, meu senhor, só posso vender por 10.000 francos!” Provavelmente a obra estava havia anos no depósito e a operação tornou duas pessoas felizes, ele e eu.
Comprei alguns milhares de livros e, quando chegavam os pacotes, nossa alegria era grande em ver o que eu tinha adquirido. Acontece, porém, que quando entrava um cliente, ficávamos aborrecidos, pois a idéia de vender não era nada sedutora. Só que tínhamos obrigação moral de vender obras que gostaríamos de conservar, em virtude da contribuição financeira do terceiro sócio. Tive o cuidado de pedir a cada comprador que falasse comigo se algum dia quisesse vender o que estava comprando, e isso valeu para que nos 15 ou 20 anos seguintes (a livraria já não era nossa havia muitos anos) conseguisse recomprar a maior parte das boas obras que tinham sido vendidas para nossa tristeza. Um grande amigo meu, Luiz Camillo de Oliveira Netto, tinha me ponderado que colecionar livros e vendê-los eram duas coisas incompatíveis. Sua observação se mostrou plenamente verdadeira, ou se compram livros, ou se vendem, mas as duas coisas juntas, só muito excepcionalmente funcionam.
Foi aliás, naquela viagem que conheci Guimarães Rosa, que fazia parte da delegação brasileira à Conferência da Paz. Fizemos logo boa camaradagem e, como os trabalhos da Conferência só se iniciassem à tarde, encontramo-nos várias vezes durante o mês em que permaneci em Paris, percorrendo livrarias e tendo boas conversas. Eu o tinha achado simpático e inteligente, mas ele não me deu a menor indicação de que fosse escritor. Sua preocupação com a elegância fez com que eu achasse que não valeria a pena ler Sagarana que, na ocasião, estava fazendo grande sucesso. Só o fui ler quando se publicaram Corpo de Baile e Grande Sertão, por insistência de um amigo grande leitor. Inútil dizer que as obras de Guimarães Rosa passaram a ser, durante toda a vida, leituras apaixonadas e constantes.
A livraria, que se chamou Parthenon foi, no entanto, apenas um acidente na formação da Biblioteca cujo crescimento foi se processando continuamente, desde 1927, tanto com aquisições no Brasil como no exterior, nas viagens que minha mulher e eu fazíamos e onde ela me encorajava nas extravagâncias que eu hesitava em fazer. Parece-me interessante falar mais de leituras e de minha relação com escritores e leitores amigos. Antes disso, no entanto, creio que devo mencionar a importância de 1930 em minha vida. Ainda outra vez por acaso, entrei na redação do Estado de S. Paulo com quinze anos e meio, sendo o mais moço dos redatores e repórteres do jornal. Esse trabalho teve grande importância em minha vida, não apenas porque aprendi a escrever com simplicidade e clareza para ser acessível a um público médio, como comecei a adquirir uma visão da vida brasileira em que a Revolução de 30 modificou a conformação do país. O Estado de S. Paulo foi, aliás, um núcleo da conspiração da Revolução de 30 e aí se deu um episódio curioso. Eu era o único na redação a falar inglês e por isso o Dr. Júlio de Mesquita Filho, diretor do jornal, me chamava para sua sala para transmitir mensagens a Vivaldo Coaracy, chefe da redação do Rio, a fim de driblar a censura que era feita por escuta telefônica, sem que os censores soubessem inglês, pois a língua estrangeira predominante na época era o francês. Com isso, eu menino de quinze anos e pouco, fui tendo conhecimento de mensagens confidenciais. Passei a conhecer os meandros da política e da sociedade, o que me proporcionou a possibilidade de acompanhar desde aquele ano o desenvolvimento brasileiro, suas lutas e conquistas. Vivi duas ditaduras - o Estado Novo e o Regime Militar - e minha tendência liberal me direcionou politicamente para a oposição ao autoritarismo e para o respeito aos direitos humanos, violados tanto num regime como no outro.
O jornalismo da época era bastante distinto do de hoje em dia. As redações eram menores, o Estado era visitado diariamente por políticos de oposição e pelos principais intelectuais da época, o que tudo ajudou bem cedo meu desenvolvimento pessoal. Assim como o ano de 1927 permitiu a formação das vertentes principais da Biblioteca, o ano de 1930, e os que se lhe seguiram, foi fundamental para meu conhecimento da literatura brasileira e estrangeira. Já mencionei a leitura, aos 12 anos, de Alexandre Herculano e Raul Pompéia. Logo em seguida li Iracema e O Guarany, de Alencar, assim como A Retirada da Laguna, do Visconde de Taunay. Ele me entusiasmou a ponto de ler toda a sua obra, o que valeu a pena, apesar de um tanto excessivo. Comecei a ler os autores nordestinos – José Lins do Rego, Jorge Amado, Amando Fontes, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz, entre outros. Paralelamente, nessa década li integralmente a obra de Anatole France e os principais romances de Romain Rolland, o grande escritor pacifista que na Primeira Guerra teve de deixar a França por essa sua convicção política. A leitura desses dois autores teve aspectos curiosos. Estava no maior entusiasmo com Anatole France quando dei com uma observação de Romain Rolland sobre ele, dizendo que Anatole podia ser comparado aos gigantes que, não conseguindo romper as cadeias que os prendem, divertem-se com elas. Isto amainou um pouco meu entusiasmo por Anatole France, mas voltei a considerá-lo um escritor muito sedutor e, nos dias de hoje, a meu ver, injustamente esquecido, pois suas sátiras políticas e descrições históricas, como Les Dieux ont Soif, sobre o terror na Revolução Francesa, são magistrais. O destino de Romain Rolland foi, aliás, parecido com o de Anatole, pois seus grandes romances Jean Christophe e L’Âme Enchantée, obras admiráveis, também hoje estão injustamente esquecidas.
A década de 30 foi profícua em matéria de leitura brasileira e estrangeira. Dos nossos, além dos ficcionistas nordestinos, li Casa Grande & Senzala e Os Sertões. Lembro-me que achei empolada e de leitura difícil a linguagem de Euclides, e um tanto prolixa a de Gilberto Freyre, mas em releituras posteriores consegui ver a importância destas duas obras, assim como das de Sérgio Buarque de Holanda. Na leitura dos Sertões creio, aliás, embora isso possa parecer uma heresia, que não seria nada mau começar a leitura pela parte da Guerra, depois o Meio e, por fim, o Homem. Na leitura convencional, imagino que muita gente não vá até o fim.
A leitura incluiu os principais autores brasileiros do século XIX e os grandes romances da literatura francesa de Stendhal a Flaubert. Foi, como se vê, uma leitura um tanto desordenada, mas que me deixou um resíduo cultural básico, mesmo em minha visão de hoje. Em meio aos que posso classificar de modernos, houve também Platão, Plutarco, o teatro grego e romano, Homero e Virgílio, de quem ainda hoje sei de cor alguns trechos em latim. Naturalmente, não faltou Shakespeare, a trindade francesa Molière, Racine e Corneille e os grandes autores russos, especialmente Tolstói e Dostoievski .Boa parte desses autores, li durante as aulas na Faculdade de Direito que freqüentei de 1932 a 1936. A maior parte dos professores lia durante 50 minutos, em voz monótona, suas preleções, cujas apostilas eu lia em casa em 15 minutos. Sentava-me, pois, no fundo da sala e mergulhava nas leituras de minha preferência. Ia me esquecendo de Montaigne que, na faculdade, li pela primeira vez.
Não é fácil esquematizar a seqüência das leituras década por década, mas parece-me que vale a pena tentar algumas indicações. Marcante na década de 40 foi a descoberta de Proust. Quando iniciei sua leitura esbarrei no que me parecia ser uma dificuldade insuperável – a falta de parágrafos. Deu-se então uma coisa curiosa. Em casa de Luiz Camillo de Oliveira Netto encontrei uma noite Tristão de Athayde, nosso grande Alceu de Amoroso Lima, que tinha sido, com Rubens Borba de Moraes, um dos introdutores de Proust no Brasil, já nos anos 20. Mencionei a dificuldade que sentira e, numa tentativa de ser espirituoso, que geralmente não funciona, disse que Proust descrevia o sono tão bem que o leitor adormecia. “Você está muito enganado rapaz”, disse-me Tristão de Athayde. “Você deve ler as 50 primeiras páginas com toda a dificuldade que possa encontrar e, se no fim dessas 50 páginas, não tiver penetrado no universo de Proust, leia mais 50 com o mesmo esforço e nunca mais você deixará de ler Proust”. Segui o conselho e vi que ele tinha razão, tanto que, como disse lá atrás, já li 5 vezes a Recherche, com dez anos de intervalo entre cada leitura.
Autores menores, mas mesmo assim ótimos, como André Gide e Roger Martin Du Gard, também foram descobertas da década de 40 , assim como as Mil e uma Noites e o Decameron, de Bocaccio. Na década de 50 li toda a Comédia Humana, de Balzac, o que me permitiu ver o gigantismo do escritor. Sua descrição da sociedade, dos tipos humanos, das intrigas do funcionalismo, entre muitas outras coisas, é ainda hoje de surpreendente atualidade. Lidando com mais de 2.000 personagens, algumas aparecendo em primeiro plano e outras como pano de fundo, o que se reverte em outras obras, vê-se claramente a incrível fertilidade de Balzac. É surpreendente como ele, não tendo filhos, pôde escrever, por exemplo, o Père Goriot, onde penetra nos mais profundos arcanos da maldade humana.
Na década de 60, as principais leituras foram de autores latino-americanos , de Borges a Octavio Paz, com os principais autores de cada país entre eles. Continuar a seqüência cronológica tornaria a lista de leituras grande demais, de sorte que só vou destacar mais alguns nomes, ficando subentendido que li as principais obras de literatura inglesa, italiana, russa, alemã e espanhola, além da literatura portuguesa, de onde Camões e Gil Vicente não podem ser ignorados e Saramago entrou nos anos oitenta, já eliminada a dificuldade da falta de parágrafos que eu tinha vencido com a leitura de Proust. Saramago, a meu ver, bem mereceu o prêmio Nobel e se praticamente todos os seus livros são bons, o Memorial do Convento e o Evangelho Segundo Jesus Cristo se destacam esplendorosamente. De Saramago, tenho uma carta enviada enquanto ele escrevia o Evangelho, curiosamente dizendo que este lhe metia medo. Ficamos amigos através dos livros, como aconteceu com vários escritores, mas não vou entrar nessa seara, lembrando apenas o saudoso Francisco de Assis Barbosa que foi, aliás, quem me saudou quando recebi, aqui na Academia, a Medalha João Ribeiro, além de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Mello Neto e Manoel de Barros.
Falando da Biblioteca, seria cansativo para os que me ouvem, ou talvez até pretensioso, estar mencionando as principais raridades mas, além das duas versões da primeira edição dos Lusíadas, uma com o pelicano à direita do leitor e a outra à esquerda, creio que deve ser dito que a Biblioteca possui o Sonho de Poliphilo, publicado em 1499, por Aldus Manucius, erudito editor de Veneza, que revolucionou o mundo editorial da época, tornando-se um dos mais belos livros publicados em todos os tempos.
A descrição da Biblioteca também seria fastidiosa, mas creio que uma referência ao critério com que foi sendo formada seria necessária. Disse, de início, que ela cresceu ao sabor de minhas leituras e que estas foram indisciplinadas, mas cedo me convenci de que alguma ordem deveria existir sob pena de ela se transformar numa acumulação desordenada de livros. Isto me levou a estabelecer certas vertentes que são basicamente as seguintes: livros sobre o Brasil, dos mais variados assuntos, para formar um acervo de estudos brasileiros. Esta vertente, que inclui Literatura, História, Viagens, História Natural, Arte etc., é quase por si só uma biblioteca. As outras vertentes são a literatura universal, as obras de referência e a história do livro, com exemplares do que este foi desde o século XV até os nossos dias, pois tenho especial interesse pela arte gráfica, não sabendo se fui gráfico numa encarnação anterior ou se virei a ser numa encarnação futura.
O setor de obras de estudos brasileiros acabou formando um conjunto indivisível, o que levou muitos amigos a nos perguntarem qual seria o seu destino. Isso também nos preocupou durante muitos anos, e chegamos à conclusão de que um conjunto dessa natureza deveria se tornar um bem público, pois tinha excedido o que seria razoável para uma propriedade particular. Além disso, não podia correr o risco de ser fragmentado, pois o material nele contido constitui fonte de pesquisa que, sem falsa modéstia, acho que posso qualificar de importante. Decidimos então, Guita e eu, e nossos quatro filhos, doar nossa Brasiliana à Universidade de São Paulo, que está construindo um prédio para recebê-la e formou uma unidade universitária denominada Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Com isso esperamos formar no futuro um centro de estudos brasileiros composto por nossa Biblioteca, pelo acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da USP e pela Biblioteca de Rubens Borba de Moraes, de quem adiante falarei, tudo representando uma fonte de estudo e pesquisa que não existe em nenhuma outra universidade brasileira e, muito menos, fora do Brasil.
Tive a veleidade de ser uma espécie de editor bissexto, publicando fac-símiles de obras difíceis de se encontrar de literatura brasileira, especialmente do Modernismo, pois que, não tendo sido este tomado a sério pelo grande público na ocasião, as obras não se conservaram e se tornaram raridades, como a Revista de Antropofagia, a Verde de Cataguases, ou A Revista, de Carlos Drummond de Andrade, além de outras. Essas reedições foram feitas sempre com a colaboração e programação gráfica de minha filha Diana. Quando fui Secretário de Cultura do Estado de São Paulo publiquei uma série de obras de problemático sucesso comercial mas de grande interesse intrínseco, como a obra completa de Amadeu Amaral ou as Memórias de Paulo Duarte, assim como ensaios literários sobre o Modernismo e Guimarães Rosa.
Tenho também uma desculpável obsessão por manuscritos e procurei reunir, na Biblioteca, alguns de destacados escritores da era pré-computador. Posso mencionar originais manuscritos ou datilografados com numerosas correções autógrafas de Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre, Banguê, de José Lins do Rego, Olhai os lírios do campo, de Érico Veríssimo, O Quinze, de Rachel de Queiroz, Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, O louco do Cati, de Dionélio Machado, Epigramas Irônicos e Dentimentais, de Ronald de Carvalho, e isto sem falar de duas estrelas que são Vidas Secas, de Graciliano Ramos e Grande Sertão, de Guimarães Rosa. São numerosos também os manuscritos históricos e cartas e documentos autógrafos dos principais escritores brasileiros.
Classifiquei a Biblioteca de indisciplinada porque considero que os livros são feitos para nós e não nós para os livros, de sorte que as vertentes não são rígidas e quando encontro alguma obra que me seduz mas não se enquadra em qualquer das vertentes, nem por isso deixo de comprá-la. Da vertente Literatura não falei em poesia que tem um papel importante na Biblioteca e em nossa vida. Tanto a poesia brasileira desde Gregório de Mattos e autores mineiros, até os principais poetas do século XIX e do Modernismo brasileiro se encontram nas estantes, assim como os grandes nomes da poesia universal, da qual se tivesse de destacar um nome, escolheria Baudelaire, de cujas Flores do mal a Biblioteca possui a edição original com as peças censuradas e até uma pré-edição parcial publicada na Revue des Deux Mondes. Sempre tive a mania de ler poesia em voz alta, com a sorte de minha mulher preferir ouvir a ler poesia, o que permite imaginar quanta poesia foi lida em casa nestes quase setenta anos de convivência.
Tive dois grandes interlocutores durante a formação da Biblioteca, que me fazem falta até hoje: Luiz Camillo de Oliveira Netto, que foi diretor da Biblioteca do Itamaraty, da qual foi demitido por ter sido um dos autores do Manifesto dos Mineiros, escrito em 1943, contra o Estado Novo, químico de formação, homem de grande cultura literária, histórica e musical, com excelente biblioteca. O outro, - o primeiro, aliás – foi Rubens Borba de Moraes, autor da Bibliographia Brasiliana que contém a descrição de todas as obras raras sobre o Brasil, de 1504 até 1900, obra que se pode classificar de monumento de erudição, e de outros livros sobre bibliografia brasileira, além de um delicioso livrinho publicado em 1924, Domingo dos Séculos, em que já fala de Proust. Rubens possuía uma excelente biblioteca brasiliana que nos deixou em testamento Foi diretor da Biblioteca Nacional, onde o substituiu Josué Montello e logo depois convidado para formar e dirigir a Biblioteca da ONU. Foi um leitor incansável da literatura universal, como Luiz Camillo, ambos dotados de grande senso de humor, o que certamente foi um dos elementos de nosso fraterno entendimento.
Um terceiro amigo que foi muito mais do que interlocutor, um verdadeiro irmão mais moço, é nosso grande Antonio Candido. Nossas afinidades se encontraram quando ambos ainda éramos solteiros e se prolongaram através da vida inteira até hoje. Foi esta amizade que me levou a conversar sobre minha entrada nesta Academia e a trocar idéias com ele sobre o discurso de posse em que ele deu o palpite que de início mencionei. Uma de minhas frustrações na vida foi não ter sido seu aluno, mas creio poder dizer que com ele aprendi muita coisa em nossos freqüentes encontros, que espero se prolonguem ainda por alguns bons anos.
Falando sobre amizade, ia me esquecendo de mencionar aqueles autores que conheci quando trabalhava na redação do Estado de S. Paulo, dos quais me tornei amigo, por exemplo, Guilherme de Almeida, Antonio de Alcântara Machado, Léo Vaz e Affonso Schmidt, entre outros. Os amigos que tive através da vida são numerosos mas se se considerar que a leitura de um bom livro faz sentir uma afinidade e uma amizade virtual com o autor, então meus amigos, como resultado da leitura, são inúmeros. Tenho pena, por exemplo, de ter tido apenas um contato superficial com Mário de Andrade, mas isso não impede que de certo modo ele faça parte de minha vida. Ora, posso dizer que o mesmo acontece com Machado de Assis ou Proust, em que a falta de conhecimento pessoal não diminui o papel que até hoje exercem em minha vida. E isso multiplicado pelos milhares de livros que li no curso da existência, faz com que eu pertença, na realidade, a este mundo admirável que é o mundo dos livros e que também virtualmente tenha contato através dos livros com numerosas academias de letras pelo mundo afora. Isso acontece aliás, também com as senhoras e os senhores acadêmicos. Daí o prazer que senti ao ser eleito para esta casa onde, aliás, tenho a alegria de contar com muitos e bons amigos. Mas estou consciente de que isso envolve uma grande responsabilidade. Ainda não tenho uma idéia clara dos trabalhos que aqui se processam, mas os de que tenho conhecimento são de alto nível cultural e declaro-me pronto a colaborar em tudo quanto esteja ao meu alcance, para dar a esses trabalhos e a outros que venham a ser empreendidos, minha colaboração. O estímulo à leitura e ao livro está na ordem do dia como uma responsabilidade social interativa. Teria grande interesse em saber se uma atividade neste sentido faz parte dos programas culturais da Academia. Se faz, tanto melhor, mas se isso ainda não está sendo feito, gostaria de encerrar este pronunciamento com uma primeira proposta de cooperação pois, despertar na grande massa o interesse pela leitura, antes de tudo como fonte de prazer, constitui, a meu ver, um fator essencial de desenvolvimento.

Aqui se reúnem grandes valores literários a que estou longe de poder me comparar, mas será para mim motivo de prazer participar de trabalhos que pretendam realizar.

Agradeço, mais uma vez, senhoras e senhores acadêmicos, sua generosa acolhida.

José Mindlin

«O Bibliófilo José Mindlin» - Bibliomanias

Paixão e perdição

A relação dos homens com os livros, em particular a dos bibliófilos, aqueles que por eles se apaixonam, passa por três estágios. Primeiro, os homens pensam que conseguirão ler um número de livros maior do que de fato é possível. Num segundo estágio, consequência imediata do primeiro, passam a desejar ter em mãos o maior número possível de obras dos autores de quem gostam. Num terceiro momento, já siderados, surgem o interesse pelas primeiras edições, geralmente raras, e a atração pelo livro como objeto de arte. Esta última fase é definida pelo mais célebre bibliófilo brasileiro, o empresário paulista José Mindlin, como perdição. "Quando se chega a esse estágio, aquele que pensava em ser na vida apenas um leitor metódico está irremediavelmente perdido", confessa Mindlin. A patologia – doce patologia – está instalada em definitivo. Essa tese é defendida logo na abertura de Uma vida entre livros – reencontros com o tempo (Edusp-Companhia das Letras, 214 págs. R$ 42), texto confessional e ao mesmo tempo uma espécie discreta de autobiografia intelectual, em que o bibliófilo conta a história de sua paixão pela literatura.
Uma vida entre livros é uma obra desavergonhadamente derramada, sincera, até um pouco exagerada às vezes, como se passa quando se confessa uma paixão. Nele, Mindlin deixa de lado a vida mais crua do mundo empresarial e se dedica a entregar aos leitores, sem nenhuma pose de literato, pequenos tesouros íntimos. José Mindlin é, pode-se afirmar, o grande amante dos livros no Brasil. Sua biblioteca particular em São Paulo, ele mesmo estima, tem hoje 30 mil volumes, dos quais dez mil são raros e dois mil, raríssimos. Mindlin começou a comprar livros aos 13 anos. Nessa idade, ele já tinha lido obras como a História das Religiões, de Salomon Reinach, e as Letras e narrativas, de Alexandre Herculano. Desde 1927, lá se vão 70 anos, o empresário tem o hábito de frequentar sebos. Uma única regra o guiou na construção de sua esplêndida coleção, o prazer da leitura. "O que não gosto, e raramente acontece, é de ler por obrigação", diz. Mesmo diante daqueles títulos raros que sempre desejou e nunca conseguiu comprar, é o prazer, e não a cobiça, que o move. Ainda há muitos desejos insatisfeitos. Um deles é adquirir a primeira edição de Cultura e opulência do Brasil, de Antonil, publicada em 1711. Chegou a tê-la um dia nas mãos, mas não conseguiu comprá-la.
O empresário ensina que a mais importante qualidade de um bibliófilo não é a fortuna, ou a erudição, mas a paciência. Ele relata, para os que duvidarem, a difícil história que viveu com a primeira edição de O Guarany, de José de Alencar, de 1857. O livro – que é hoje um dos tesouros de sua biblioteca – foi oferecido a amigos do empresário, nos anos 60, por um grego, que pedia por ele algo como US$ 1.000. Para desespero de Mindlin, que só veio a saber da oferta depois, nenhum dos amigos se interessou. Dez anos depois, a primeira edição da obra apareceu no catálogo de um leilão de raridades na Inglaterra. Ele fez a encomenda a um livreiro londrino, que acabou deixando o livro escapar porque o achou caro demais. Em 1977, Mindlin foi a um leilão de livros raros em Paris e lá soube que O Guarany estava disponível. Na viagem de volta, já com seu tesouro no colo, pelo qual pagou muito mais do que o preço original, Mindlin pegou no sono. Ao desembarcar, não se deu conta de que deixara o livro caído no tapete do avião. A Air France o achou, três dias depois, em Buenos Aires. Foi preciso esperar mais alguns dias até o volume chegar, são e salvo, a seu destino definitivo.
No final Mindlin ainda elenca seus autores preferidos, entre eles Balzac, Tolstói, Cervantes, Sterne e Virginia Woolf. A experiência o leva a dar bons conselhos. Em matéria de livros, garante, cada um deve ser capaz de fazer suas próprias escolhas. O leitor deve se permitir passar de Machado a Astérix ou de Shakespeare a Agatha Chirstie. O importante é o prazer da leitura. Tanto que resume seus sentimentos com uma frase: "Num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver."
"Paixão e perdição" - Texto de José Castello, para ISTO É, 12/11/97
O guardião de relíquias
José Mindlin, o maior bibliófilo do país, expõe ao público sua coleção de gravurasMichelangelo, além de genial, era um ingrato - ao menos com o papa Júlio II, o mecenas responsável pela encomenda dos afrescos que adornam o teto da Capela Sistina. No século 16, houve entre seus contemporâneos quem reconhecesse o semblante do papa entre as infelizes criaturas que expiavam culpas no Juízo Final, na mesma Sistina. Antes e depois disso, muitos mecenas fizeram por merecer melhor recompensa. É o caso, para ficar num exemplo próximo a nós, do ex-empresário José Mindlin, promotor de mais de duas dezenas de manifestações culturais, principalmente livros, e amigo de gente graúda no meio artístico. Foram tantas as gravuras e matrizes com que artistas agradecidos lhe presentearam que, com muitas outras adquiridas por ele ao longo de 84 anos de vida, deu para montar a exposição Os Colecionadores - 1998, com cerca de 750 peças de 67 autores diferentes. E ainda sobrou quase outro tanto.Entre modesto e franco, Mindlin avisa que o acervo não chega a ser propriamente uma coleção, embora inclua trabalhos dos principais nomes do país no gênero: Lasar Segall, Oswaldo Goeldi, Lívio Abramo, Fayga Ostrower e Maria Bonomi, entre outros. Não chega, porém, a formar um "todo coerente", como diz Mindlin, ao contrário de seu outro tesouro - a biblioteca. Aos livros, o ex-dono da Metal Leve e o maior bibliófilo do país destina duas alas de sua casa, em São Paulo, além de dois imóveis vizinhos inteiros. Suas estantes acomodam cerca de 26 mil títulos, dos quais 10 mil em edições raras, datadas desde o século 15.Ausente da mostra Os Colecionadores estará, por ser estranha ao tema e ao mundo da gravura, a obra talvez mais reveladora da personalidade de Mindlin. Permanecerá em lugar nobre de uma estante na sala principal da biblioteca, guardada por anjos e santos barrocos que espreitam das paredes, ao lado de telas de Tarsila, Segall e de uma madonna peruana. De encadernação austera, ela leva na lombada o nome de Guita Kauffmann, não por acaso o nome de solteira da senhora Mindlin. Ao toque adestrado do marido, uma parte do que seria a capa desliza e deixa à mostra um engenhoso mecanismo, concebido por ele, dotado de pés basculantes e travas. Em instantes transforma-se em um descanso para pés. Foi um presente, nos anos 30, do então estudante da Faculdade de Direito do Largo São Francisco à colega, namorada e futura esposa, queixosa de sua baixa estatura, que a deixava com os pés no ar quando se sentava à carteira.O episódio antecipava alguns dos atributos que esse filho de imigrantes russos iria lapidar no futuro, como criatividade, espírito empreendedor, determinação e arrojo, além da obsessão por livros. Da impetuosidade, Guita tivera prova ao pisar pela primeira vez na faculdade, como caloura. Tão logo chegou, os veteranos passaram a assediá-la na tentativa de conquistar sua adesão para um dos partidos políticos da época. Testemunha da cena, Mindlin tomou a frente e lançou seu mel, dizendo-se o melhor partido que a jovem poderia encontrar. A liga combinou. Desde então, ela tem sido sua parceira incondicional, até na paixão pelos livros - a ponto de tornar-se a encadernadora oficial da casa - e pela arte. Com freqüência, foi graças a seu incentivo que ele resolveu desembolsar pequenas fortunas para ter alguma relíquia impressa na estante.Formar uma biblioteca como a de Mindlin é obra de uma vida inteira e resultado de muito conhecimento, paciência e esforço, sem falar em dinheiro. A pedra fundamental dessa Alexandria dos trópicos foi lançada quando ele tinha 13 anos e comprou o Discurso sobre a História Universal, de Jacques Bossuet, em edição portuguesa do século 18. Mas foi só no ano seguinte que a comichão de colecionador se apossou dele, despertada pela História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador, presenteada por uma tia. Sobre ela, edificou-se a maior brasiliana conhecida - mais completa até que a da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, atesta Pedro Correa do Lago, um dos principais livreiros do país.O conjunto inclui desde manuscritos dos Sermões do Padre Vieira a edições originais de relatos das primeiras viagens de cunho científico pelo Brasil, como a de Hans Staden; das cartas de dom Manuel ao papa aos originais revistos de Grande Sertão: Veredas e Sagarana, de Guimarães Rosa, e de dezenas de grandes obras da literatura brasileira. Mais prático do que relacionar uma a uma, dizer que faltam apenas duas obras importantes na brasiliana dá a medida de sua abrangência: História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães, e Cultura e Opulência do Brasil, de Antonil. Esta, em edição de 1711, de uma família francesa radicada no Rio de Janeiro e disposta a vendê-la, chegou a ser manuseada por Mindlin. Mas, por influência de um antiquário que intermediava o negócio, foi parar em outras mãos. Seus antigos donos teriam recebido US$ 3 mil pelo livro. Mindlin afirma que teria pagado dez vezes mais.Em todo caso, ele não perde o sono pelas lacunas. Mas também não espera que uma raridade lhe caia no colo. No ano passado, informado de um colecionador uruguaio interessado em vender um lote enorme de documentos originais sobre a Província Cisplatina, foi até Montevidéu e voltou de lá carregando 96 quilos de papéis sobre o Brasil. Teve de emprestar duas malas de nosso corpo diplomático - as duas que levara de casa se mostraram insuficientes. A documentação só agora terminou de ser tombada por uma professora, Cristina Antunes, braço direito de Mindlin há dez anos.Viajante contumaz, ele organiza seus périplos segundo as conveniências da biblioteca. Em 1973, por exemplo, convidado a participar das comemorações do 25o aniversário da criação de Israel, ele introduziu no roteiro uma escala na Suíça ao descobrir a existência de um manuscrito jesuíta sobre a Bahia do século 17. Ao desembarcar com ele na bagagem em Israel, despertou a atenção de uma agente alfandegária. Intrigada, quis saber do visitante o conteúdo dos papéis e, após ouvir uma explicação minuciosa, não resistiu à tentação de perguntar: "O senhor sempre faz essas anotações quando viaja?"Foi a primeira e última vez que Mindlin, um judeu, esteve em Israel. Não que ele seja anti-sionista. Pelo contrário, acha importantíssima a acolhida dada por Israel aos judeus perseguidos em outras partes do mundo. Mas também não concorda com a tese de subordinar a Israel aqueles que escolheram viver fora de lá. Além do que é um agnóstico assumido e rejeita os dogmas religiosos do judaísmo, embora se sinta ligado ao povo hebraico por laços culturais. Por isso, é visto com reservas pela ala mais ortodoxa da comunidade judaica no Brasil.A biografia de Mindlin indica que ele não tem medo de cara feia. Aos 84 anos, também se dá ao direito de dizer o que pensa sem se preocupar com melindres, embora com delicadeza. Dias atrás, por exemplo, recebeu em sua casa a visita de uma jovem editora. Logo na chegada, ela lhe entregou o exemplar número 1 do primeiro livro que publicava. Mindlin, que não a conhecia, leu a dedicatória e pediu licença para observar: não fica bem colocar o carimbo "Cortesia do editor" em livro oferecido, uma regra no Brasil. A jovem, parece, aprendeu a lição.Títulos recentes, com cheiro de best-seller, têm escassa chance de inclusão no rol de 80 a 100 livros que, em média, Mindlin lê por ano, incluindo-se as releituras. Só o colossal Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, por exemplo, ele devorou cinco vezes, em edição original. Os clássicos, diga-se, formam outro sólido pilar de sua biblioteca, forrada com Petrarcas, Camões, Joyces etc. Natural, portanto, que não passe um só dia, quase, sem que um pesquisador, jornalista ou editor percorra aquelas estantes em busca de material para trabalhos pessoais. Mindlin fica feliz. Como costuma dizer, ele é apenas o guardião do tesouro, e não o seu dono.
"O guardião de relíquias" - Texto de Nelson Letaif, para ÉPOCA ONLINE


José Mindlin: O guardião dos livros

Uma loucura mansa. É assim que o bibliófilo José Mindlin define sua paixão pelos livros. Por amor a eles, é capaz de passar 20 anos atrás de um exemplar raro, como aconteceu com a primeira edição de O Guarany, de José de Alencar. A obsessão começou quando era menino e hoje, aos 85 anos, está expressa numa imensa biblioteca particular de mais de 30 mil volumes que não pára de crescer. Tanto que o prédio construído especialmente para ela já não basta. Mindlin aluga dois imóveis perto de sua casa para abrigar os livros excedentes. Um terço dessa coleção gigantesca é formada por obras raras, garimpadas em livreiros e sebos do mundo inteiro, muitas vezes às custas de estratégias mirabolantes para consegui-los. Há desde a primeira edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões, a manuscritos como o Livro das Horas, um pergaminho de 1480. E também originais de livros como Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, com correções à mão do autor. Tal é a amplitude da biblioteca de Mindlin, que o Museu Lasar Segall, em São Paulo, vai inaugurar no próximo dia 3 de outubro uma exposição dos 110 exemplares mais representativos da coleção.
José Mindlin nunca se considerou proprietário dos livros que tem. Para ele, uma biblioteca é sinônimo de preservação de cultura, que não tem dono. Aliás, o bibliófilo acaba de assinar um acordo com a Universidade de São Paulo, doando a parte mais extensa de seu acervo, batizada por ele de "Brasiliana", que reúne apenas livros sobre o Brasil. O contrato prevê a construção de uma biblioteca de 10 mil metros quadrados para abrigar o tesouro em pleno campus. Assim, estudantes e pesquisadores terão acesso a preciosidades como a História Geral do Brazil, de Varnhagen, publicada em 1876, ou as Viagens de Hans Staden, de 1557. Mesmo diante de tal gesto, Mindlin faz questão de salientar que a biblioteca nunca pertenceu só a ele, mas também a Guita, sua mulher, que é restauradora de livros.
Apesar dos anos de garimpagem, Mindlin não se define como um colecionador, mas, antes de tudo, um leitor inveterado. "Estou sempre com um livro na mão", conta. "Sou um leitor que passou a bibliófilo." A leitura foi a origem de sua vasta coleção, com os livros sendo adquiridos um a um. Mas como Mindlin interessa-se pelos mais variados assuntos — ficção, poesia, teatro, biografia, ensaio, relato de viagem, para ficar em alguns —, a biblioteca cresceu "indisciplinadamente", como ele gosta de frisar. A busca de obras raras surgiu tempos depois.
A passagem de leitor para bibliófilo se deu quase imperceptivelmente, mas logo se transformou num caminho sem volta. Ele explica que o ponto inicial desse processo pode ser um escritor de quem se gosta: "O desejo de ter todos os livros deste autor já é o começo de uma coleção", argumenta. "Aos poucos, vai surgindo o interesse pelas primeiras edições, as encadernações, as tipologias, ou seja, a atração do livro como objeto. Chega-se então à busca de raridades. Nesse ponto, o leitor já está irremediavel mente perdido. Foi o que aconteceu comigo. Dei-me conta de que era uma doença incurável, mas, ao contrário das outras, só me fazia bem. Por isso, nunca me preocupei."
Achados e perdidosO primeiro livro raro adquirido por Mindlin foi Discurso sobre a História Universal, de Bossuet, de 1740, quando ele era ainda um garoto de 13 anos. A experiência de bibliófilo, entretanto, acabou mostrando que não bastava um livro ser antigo para ser raro. Outros fatores contam também, como o conteúdo da obra, o valor histórico, a tradução, as ilustrações e até curiosidades como dedicatórias e erros tipográficos (...). "Há livros modernos mais difíceis de encontrar do que muitas obras de séculos atrás", garante Mindlin. Mas encontrar um exemplar raro, depois de anos de busca incessante, é a maior glória de um bibliófilo, que precisa lançar mão de alguns subterfúgios para ser bem-sucedido. Uma regra básica é nunca demonstrar emoção diante do livreiro. Isso pode fazer com que o preço de um exemplar chegue às alturas. Outra estratégia é sempre pechinchar. Se bem que, em alguns casos, "a gente vende um imóvel e compra o livro", prega Mindlin. "Dinheiro a gente recupera, mas um livro raro, não."
Há muitas dessas histórias por trás das estantes da vasta biblioteca. Entre as mais curiosas está a aquisição da primeira edição de O Guarany, de José de Alencar, publicada em 1857, pela qual o bibliófilo esperou 17 anos. A primeira notícia que teve sobre a obra foi na década de 60, quando um grego, no Rio de Janeiro, chegou a oferecê-la por mil dólares. Mindlin soube disso tarde demais. O grego já havia desaparecido. Persistente, passou dez anos atrás do exemplar, até que ele reapareceu num leilão na Inglaterra. Mindlin, imediatamente, encarregou um livreiro amigo de arrematá-lo. De novo, a sorte não ajudou. Quando o livro alcançou 60 libras, o amigo resolveu desistir, pensando que Mindlin achasse o preço excessivo. Só em 1977, o bibliófilo conseguiu realizar o seu sonho, adquirindo O Guarany em Paris, num leilão de livros raros sobre o Brasil. Para isso, teve que travar um verdadeiro embate com o grego, que, então, já pedia pelo livro muito mais do que havia oferecido no Rio. Mas a proeza não termina aqui. Na volta para o Brasil, Mindlin veio com a raridade no colo e acabou perdendo-a no avião. Só três dias depois o livro reapareceu. Tinha ido parar em Buenos Aires.
Apesar das muitas façanhas com final feliz, Mindlin guarda algumas frustrações. A maior delas foi não ter comprado a primeira edição de Cultura e Opulência do Brasil, de Antonil, publicada em 1711, embora a oportunidade tenha aparecido uma vez. Até hoje ele se arrepende disso, pois nunca mais teve outra chance. "Há momentos que não se pode hesitar", explica. "É melhor arrepender-se de ter comprado, do que ter deixado de comprar." Outro velho sonho é possuir um livro de Marcel Proust autografado ou com anotações do próprio escritor. "Mas uma raridade dessas atinge preços tão elevados que não tem cabimento pagar", pondera. "A gente não pode ser escravo do livro a ponto de fazer grandes loucuras." Depois de uma pequena pausa, Mindlin completa: "Pequenas loucuras, sim".
"José Mindlin: O guardião dos livros" - Texto de Cláudio Fragata Lopes, in Galileu/Globo
Caso de amor com os livros: José Mindlin

Quando, aos 13 anos, o empresário José Mindlin começou a comprar livros em sebos de São Paulo, ele não imaginava o resultado da investida. Setenta e cinco anos depois, Mindlin é considerado o maior bibliófilo brasileiro, reunindo uma coleção com cerca de 29 mil títulos, algo próximo a 45 mil volumes, muitos deles verdadeiras raridades. "A leitura é que conduziu à formação da biblioteca", conta. "Para mim, é uma compulsão patológica tanto a aquisição quanto a leitura", afirma ele, que esteve na Capital na semana passada participando de uma palestra promovida em conjunto pelo curso de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC) e pelo Escritório do Livro.
Filho de pais russos, imigrados para o Brasil no começo do século passado, advogado, fundador da Metal Leve (fabricante de autopeças), repórter de "O Estado de S. Paulo" e ex-secretário de Cultura do governo Paulo Egydio Martins, Mindlin define as etapas do processo em que se estabelece a compulsão patológica, o "verdadeiro vício", pelos livros. "Primeiro se começa com as edições comuns. Depois vem o interesse pelo livro bonito, com ilustrações e bem diagramados. A próxima é a busca das primeiras edições de um determinado título. Passa-se, então, a procurar exemplares autografados. A última etapa é a consciência da raridade. E aí você está definitivamente perdido", afirma ele, com um bom humor que é uma das suas características.Até o ano passado, ele lia de seis a oito livros por mês. Agora, com problemas de visão, precisa recorrer a uma lupa, dificuldade que reduz um pouco este volume. Mesmo assim, mantém uma pilha deles na cabeceira e um sempre próximo à mão, que lhe permite ler "em uma soma de pequenos períodos". "Minha preferência é por ficcão e crítica literária. Atualmente estou lendo "A Mãe de sua Mãe e suas Filhas" (Editora Globo), de Maria José Silveira", conta. A escolha dos títulos que vão compor a biblioteca é totalmente intuitiva. "Quando eu vejo um livro que me atrai, mesmo sem ter nenhuma referência, eu compro e normalmente não me arrependo." Antes, somente eram adquiridos aqueles que interessavam pessoalmente a Mindlin, sua mulher ou filhos. Agora que a coleção virou referência, outra parte foi agregada, com história natural e geografia, entre outros.Consciente de que o acervo literário formado ao longo das quase oito décadas não poderá ser refeito caso se disperse, Mindlin já traçou planos para a biblioteca. A idéia é montar uma fundação de direito privado, fazendo a doação da parte brasileira - cerca da metade dos títulos. "A instalação será num prédio da Universidade de São Paulo (USP), mas com o gerenciamento pela fundação num período de 99 anos", detalha. Como há muitos livros raros, o acesso será restrito a pesquisadores.O intelectual admite que manter uma biblioteca em casa é algo que dá prazer, mas argumenta que "ter o livro não deveria ser a condição para se ler". Para ele, é obrigação do governo — com a colaboração dos empresários — a formação de bibliotecas, principalmente em escolas públicas de ensino fundamental e médio. Com isso, estaria-se estimulando o hábito principalmente entre as crianças. "O interesse cada vez maior pela leitura também formará um grupo maior de patrocinadores. Quem gosta de ler tem o prazer de que isso seja transmitido", ensina ele, que é considerado um dos mais importantes mecenas brasileiro do livro. "Eu tenho procurado sempre inocular o vírus da leitura e do gosto pelos livros para um maior número de pessoas."Esse incentivo é papel de todos, já que a sociedade é um conjunto e não compartimentos estanques, afirma Mindlin. Neste esforço, a escola representa um dos fatores mais importantes, "mas tem que começar pelos professores. Eles têm que ler e gostar para poder transmitir com eficiência. Se não têm amor, dificilmente irão transmitir isto", argumenta. E a leitura deve ser vista como fonte de prazer e não como um compromisso curricular. "Ninguém gosta de fazer as coisas por obrigação. O que a criança lê é mais ou menos irrelevante. Adquirindo um hábito, a medida em que cresce, ela desenvolverá o discernimento sobre a qualidade."A respeito da qualidade da literatura brasileira, ele diz que há bons autores e outros nem tanto. Mesmo sem citar nomes, faz referência indireta a Paulo Coelho, recém-empossado na Academia Brasileira de Letras (ABL): "Há um escritor que está para a literatura assim como o bispo Edir Macedo está para a religião", provoca. "Aquilo não é literatura, mas não podemos generalizar, temos bons autores e há edições populares bem acessíveis, com bons textos", afirma. "Caso de amor com os livros: José Mindlin" - Texto de Carla Pessotto


Entrevista de Mindlin a Suza Machado (Extracto)
[Jornal "A Tarde" de 12/02/2005]

Suza Machado - O bibliófilo José Mindlin e sua atuação como editor são temas de duas publicações recentes - o livro/DVD José Mindlin, Editor e Memórias Esparsas de uma Biblioteca. Já sua biblioteca é tema do livro de Cristina Antunes, Memórias de uma Guardadora de Livros. O que significa para o Sr. estas iniciativas?
José Mindlin - Os livros de autoria de Cristina Antunes e o meu, editados como "Memórias", podem mostrar como a formação de uma biblioteca não é um bicho de sete cabeças. Foram escritos com prazer. Quanto ao livro José Mindlin, Editor foi uma gentileza da Edusp quando completei os primeiros 90 anos. Seria hipocrisia dizer que não me deram um prazer especial. Meu trabalho como editor veio do desejo de tornar conhecidas às gerações atuais obras importantes, especialmente do Modernismo brasileiro que, por não serem tomadas a sério na época de sua publicação, não se conservaram, tornando-se grandes raridades. José Mindlin, Editor foi uma homenagem elogiosa, e uma fraqueza de todos nós mortais é ficarmos contentes com o reconhecimento de nosso trabalho e com elogios à nossa capacidade de realização. Percorrendo as páginas desse livro, me dei conta de que eu mesmo não me lembrava de ter proporcionado a publicação de tantas obras. Espero, aliás, continuar essa atividade de editor bissexto ou meio clandestino.
Suza Machado - O que destaca nessas publicações? Que outras histórias o bibliófilo José Mindlin ainda não contou?
José Mindlin - O que procurei destacar foi a importância fundamental da leitura durante a vida. Em paralelo, procurei dar idéia do prazer que a formação de uma biblioteca proporciona e os requisitos para conseguir isto: conhecimento, perseverança, olhos abertos para as oportunidades que se apresentam e... ter o destino a seu lado, pois o acaso é um dos principais fatores do sucesso da garimpagem. As histórias de garimpagem são inúmeras e assim mesmo já contei um bom número delas. Isto não quer dizer que não possa um dia publicar mais um livro com outras peripécias (...)
Suza Machado - A transferência de grande parte de sua biblioteca para um espaço público é um gesto de generosidade e uma grande contribuição para a cultura brasileira. De que forma a iniciativa privada pode também contribuir para melhorar o acesso ao livro e incentivar a leitura?José Mindlin - Nossa biblioteca foi formada sem o fetiche de propriedade, e sim como forma de facilitar a leitores e pesquisadores o conhecimento, além de assegurar a conservação do que já se publicou. Conseguimos formar um conjunto de obras relacionadas com estudos brasileiros, que seria uma pena que se dispersasse. Daí a idéia de destinar este conjunto a uma universidade que representasse uma segurança de perenidade. A gente passa e os livros ficam. O que vamos fazer é algo que poderia ser feito por muitos outros proprietários de bibliotecas (...)
Suza Machado - Sua biblioteca tem um acervo destacado sobre o Brasil. Que livros indicaria como indispensáveis para alguém que quisesse ter um acervo mínimo sobre o tema e por que estas indicações?
José Mindlin - Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, História do Brasil, de Bóris Fausto, Capítulos de história colonial, de Capistrano de Abreu, Evolução política do Brasil, de Caio Prado Júnior, e outras obras desses autores. Indico esses livros porque são estudos de grandes especialistas, que introduziram uma visão nova na História brasileira, muito mais interpretativa do que factual. Afinal a História não é feita apenas de fatos, nomes e datas. É evidente, no entanto, que muitas outras obras seriam necessárias, como por exemplo as de viajantes, que descrevem o País e a evolução dos costumes. A Coleção Brasiliana, da Companhia Editora Nacional, ou a Coleção de Documentos Brasileiros, da Editora José Olympio, por si sós constituiriam uma biblioteca bastante boa. Esta poderia ser iniciada com os autores que indiquei e ir sendo formada gradualmente e através de um programa de leitura.


José Mindlin: Uma vida entre pistões e livros (Extracto)

(...) Como um bom romance, a vida de José Ephim Mindlin esconde uma surpresa em cada página. "Virei empresário por acaso", disse a ISTOÉ. Antes, aos 15 anos (nasceu a 8 de setembro de 1914, na capital paulista), foi contratado como repórter de O Estado de S.Paulo e participou da Revolução de 1930. Como era um dos poucos no jornal que falavam inglês, o dono de O Estado, Júlio de Mesquita Filho, o encarregava de passar informações por telefone aos revolucionários no Rio de Janeiro, driblando os censores monoglotas.
O jornalismo perdeu o talento de Mindlin quando ele entrou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em 1932. Enquanto os professores liam monótonas preleções, o jovem estudante sentava-se ao fundo da classe para devorar a obra do francês Montaigne - o amor pela leitura começou aos 13 anos, ao entrar num sebo pela primeira vez. Nos primeiros dias de aula do quinto ano de curso, cruzou nos corredores com uma caloura que vinha sendo assediada pelos veteranos para entrar nos partidos políticos da época. Ele tomou coragem: "Olha, tudo isso é uma bobagem, porque o melhor partido sou eu!" O casamento com dona Guita aconteceu poucos meses depois e completará 61 anos em dezembro (têm quatro filhos e 11 netos).
Formado, ele atuou 15 anos como advogado. Durante o Estado Novo, defendeu imigrantes europeus que tentavam ingressar no Brasil, fugindo da Segunda Guerra, mas tinham sua entrada negada pelo governo. Em 1950, alguns clientes o procuraram para redigir um contrato de sociedade com uma fabricante alemã de pistões - em tempo: são peças cilíndricas que "sugam" o combustível permitindo o funcionamento do motor. Como os clientes desistiram do negócio, Mindlin não perdeu a oportunidade e assumiu o compromisso. Juntou-se a outros quatro empreendedores e fundou a Metal Leve - nome escolhido em homenagem ao alumínio, matéria-prima do produto.
Começou com 50 funcionários. Não demorou até que Juscelino Kubitschek chegasse à Presidência e, na esteira do desenvolvimento da indústria automobilística, a Metal Leve se tornasse uma potência no setor de autopeças. A sólida estrutura financeira, cujo segredo era evitar endividamentos, permitiu a abertura de filiais no Exterior. Presidindo a empresa, Mindlin chegou a empregar seis mil pessoas. "Posso dizer, sem pretensão e água- benta, que ajudamos a desenvolver o País. E sem tirar um tostão dos cofres públicos." A prosperidade durou até o início do Plano Real, na década de 90, quando o câmbio sobrevalorizado reduziu bruscamente as exportações e abriu o mercado brasileiro para as autopeças importadas. Após três anos amargando prejuízo, Mindlin vendeu suas ações em 1996. "Do ponto de vista emocional, foi muito difícil. Mas, racionalmente, deveria ter vendido antes."
Sempre com um livro debaixo do braço, agradece a Deus - embora seja agnóstico - ao ficar preso em congestionamento no trânsito, para poder devorar bons romances. Acredita ter lido, em cálculo otimista, oito mil volumes. "Gostaria de viver 300 anos, o que me permitiria ler de 25 a 30 mil livros." No fundo, Mindlin sabe que não é qualquer um que chega aos 85 anos com tanta disposição. Todo dia caminha quatro quilômetros no quintal da casa onde mora no Brooklin, na zona sul de São Paulo. Dá 40 voltas no pátio de 100 metros. E se dá ao luxo de não evitar suas guloseimas preferidas: chocolate, marzipã e bala de ovo. "Não tenho nenhuma pressa em me separar da biblioteca", brinca. Em caso de surpresa, no entanto, já adiantou aos filhos que gostaria de descansar em paz num túmulo que tivesse o seguinte epitáfio: "José Mindlin - Fabricou pistões a maior parte da vida sem saber o que eram." [in ISTO É]

Entrevista de Mindlin ao Jornal do BAN (Extracto)

Band - Em seu livro o sr. cita Thomas Mann dizendo que deveria ser proibida a leitura de bons livros, porque existem os ótimos. Então eu queria que o sr. desse uma dica para os estudantes sobre como eles podem discernir esses ótimos livros, sem ficar restrito aos clássicos?
José Mindlin - Bem, no próprio livro eu digo que essa idéia é inaplicável porque não existe um critério rigoroso para determinar quais são os livros excelentes, quais são os bons, quais são os regulares. Eu comecei a ler bastante cedo e a vida inteira continuei lendo. Acho que a leitura é uma das melhores coisas que a gente tem na vida, mas tem de ser num campo de liberdade intelectual – cada um resolve o que acha melhor. O importante é adquirir o hábito da leitura, não importa com quais livros, porque, depois de o hábito estar enraizado, vem a seletividade por si mesma. E cada um vai escolher se gosta de clássicos, de romances policiais – depende da vontade de cada um. Não se pode dizer “Você tem de ler determinados livros”. O máximo que se pode dizer é: “Eu achei esse livro muito bom e acho que você teria prazer em lê-lo” ou então “Eu li esse livro e achei que a leitura é uma perda de tempo, mas não é pecado gostar”. Não pode haver um preconceito de ler só um determinado tipo de livro. Para dar um exemplo extremo, uma pessoa pode gostar de ler Os Sermões do Padre Vieira e de repente interromper essa leitura para pegar um livro da Agatha Christie. Não vejo nada de mau nisso. O importante é adquirir o hábito da leitura e ir apurando por si mesmo a escolha do que ler (...)
Band - Quando começou seu interesse pela leitura? E por exemplares raros?
José Mindlin - O Brasil era muito diferente na minha infância, não tinha tantas opções. Eu tive a chance de estudar francês, que ficou sendo minha segunda língua. Primeiro, claro, a literatura infantil. Eu era leitor do Tico-tico, que formou diversas gerações. Havia os livros da Condessa de Ségur. Quando Monteiro Lobato surgiu, eu já era mais crescido. Então eu comecei a freqüentar sebos, o que também é um hábito muito salutar, porque nos põe em contato com coisas de outras épocas. E já aos 13 anos meu interesse por edições antigas começou, quando vi uma edição francesa impressa em Coimbra em 1740, se não me engano, e fiquei fascinado. Mais tarde aprendi que a idade do livro tem um significado muito relativo. Há muito livro antigo que não vale nada, e muito livro moderno que é excelente. Aos 15 anos lembro que comprei um livro de poesias do Machado de Assis, com dedicatória autógrafa dele. Essas coisas são apaixonantes e vão criando o requinte da bibliofilia. Aprendi o valor das primeiras edições, mas aprendi também que em alguns casos a primeira edição pode não ser a mais importante, como em O Guarani, de José de Alencar. E o gosto vai assim se tornando uma compulsão. Eu brinco dizendo que no meu amor aos livros há um conteúdo patológico, mas é uma patologia que faz sentir bem. E tem outra particularidade importante: é incurável. Eu procuro, nos muitos contatos que tenho com a mocidade, inocular o vírus do amor aos livros, porque uma vez inoculado está resolvido – a pessoa não se livra mais. (...)
In: bibliomanias.no.sapo.pt/Mindlin.htm
Nota do Blogue: Uma compilação de várias entrevistas com José Mindlin.

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