sábado, junho 19, 2010

Obituário: José Pina Martins (1920 – 2010) - Paulo Heitlinger (Maio 2010)

Obituário: José Pina Martins (1920 – 2010)

Faleceu aos 91 anos de idade, em Lisboa, o humanista, investigador e bibliófilo José Vitorino Pina Martins, estudioso da cultura do Renascimento e de figuras como Camões, Erasmo, Thomas More ou Sá de Miranda. Pina Martins presidiu à Academia das Ciências e foi professor da Universidade de Lisboa. Este reputado especialista do Renascimento deixou uma vasta obra publicada em Portugal e no estrangeiro. A ele se deve a descoberta de um dos mais antigos incunábulos em língua portuguesa, impressos em Portugal (Tratado de Confissom, 1489). Pina Martins reuniu uma das mais importantes bibliotecas privadas sobre estudos humanísticos da Europa.

José Vitorino de Pina Martins, um dos mais importantes investigadores e conhecedores portugueses do Humanismo Renascentista, tanto na sua expressão latina como vernácula, morreu com 91 anos de idade, vítima de doença prolongada.

Em 1947 concluiu a licenciatura em Filologia Românica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Especialista em cultura portuguesa e europeia do Renascimento, Pina Martins publicou obras como Cultura Portuguesa, Reflexões críticas sobre Eça de Queirós, Humanismo e Erasmismo na cultura portuguesa do século xvi, De como identifiquei o «Tratado de Confissom», Ensaio sobre o Parnasianismo brasileiro, Au Portugal dans le sillage d’Erasme, Humanisme e Renaissance de L’Italie au Portugal e Erasme à l’origine de l’ humanisme en Allemagne.

O Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris (www.gulbenkian-paris.org), é desde 1965 uma das mais importantes instituições de Portugal em França; pela sua direção passaram figuras ilustres. José Pina Martins dirigiu esse centro durante mais de uma década (1972–1983). Depois regressou a Lisboa, onde teve a seu cargo a direcção do Serviço de Educação da Fundação Gulbenkian.

Pina Martins ensinou nas Universidades de Roma (1949–1955) e Poitiers (1955–1961); em 1961 foi convidado para leccionar na Faculdade de Letras de Lisboa. Regeu as cadeiras de História da Cultura Moderna (1962), de História da Cultura Clássica (1962-1963), de História da Literatura Portuguesa ii (1963–1964) e de Literatura Italiana (1963–1972). Já com 54 anos de idade, defendeu tese de doutoramento na Sorbonne, sobre Sá de Miranda. Recebeu em 1963 a Medalha de Mérito Cultural de Ouro, concedida pelo governo italiano, pelos seus estudos sobre o cabalista Pico della Mirandola. Em 2008, recebeu o Prémio Pedro Hispano (1) .

A José Pina Martins devemos várias importantes investigações sobre a História do Livro. Um interessante artigo sobre a Prototipografia portuguesa – De como identifiquei o «Tratado de Confissom» – está acessível online em cvc.instituto-camoes.pt/bdc/revistas/revistaicalp/idconfissom.pdf
Para actualização desta informação, leia, de José Barbosa Machado, Os dois primeiros livros impressos em língua portuguesa, em alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/zips/machad18.pdf
Partes do catálogo da exposição Giovanni Pico della Mirandola (1463 - 1494): no V. centenário da sua... estão online no Google Books. Aí também pode consultar 129 trabalhos científicos de um grande investigador, José Vitorino de Pina ... da autoria de Manuel Cadafaz de Matos.

Ao longo de 12 anos, Pina Martins foi alternadamente presidente e vice-presidente da Academia de Ciências de Lisboa, pertencendo igualmente a outras Academias nacionais e estrangeiras, como a prestigiada Academia dei Lincei, de Roma. A sua opulenta biblioteca pessoal – a mais valiosa dos nossos tempos –, foi adquirida há anos pelo grupo Espírito Santo.

Da Comunicação feita à Academia das Ciências de Lisboa com o título J.V. de Pina Martins em convívio com os clássicos, apresentada à Classe de Letras na sessão de 21 de Janeiro de 2010, da autoria de Aires A. Nascimento, citamos, com a devida vénia, o seguinte trecho (2) :

«Quem algum dia teve o privilégio de ser recebido na biblioteca pessoal de José Vitorino de Pina Martins (...), foi possivelmente surpreendido pela revelação de um pequeno livro, de encadernação oitocentista e cor vermelha, guardado em caixa forrada a veludo da mesma cor: nada menos que a edição de Horácio saída em 1501 dos prelos de Aldo Manúcio, adquirida em Paris a um antiquário, André James, grande erudito, especialmente atento às novidades do mercado livreiro e particularmente lúcido em reconhecer e identificar raridades de origem portuguesa. Foi este exemplar dispensado por ele a J.V. de Pina Martins, a título de favor e amizade, por uma pequena fortuna – de nada menos que 80.000 Francos franceses (... cerca de 12. 500 euros).
J.V. Pina Martins guardava esse exemplar em grande honra e teve oportunidade de escrever as razões do apreço que lhe devotava, quando elaborou as memórias da sua biblioteca em Histórias de Livros para a História do Livro. O enlevo consagrado a este exemplar do texto de Horácio tê-lo-ia ouvido o visitante da biblioteca da própria voz do seu digno proprietário, pois com ele costumava iniciar a visita. No livro, ficou uma interpelação que define uma vida; pergunta J.V. Pina Martins: «Já algum dia experimentaste, caro Leitor, como é diferente ler uma poesia de Horácio, ou de Virgílio, ou de Petrarca, por um livro mal encadernado e por um exemplar de edição raríssima encadernado por um grande artista?»

A resposta não vem enunciada no livro; compreende-se: há sensações e sentimentos intraduzíveis, para os quais as palavras são supérfluas ou correm o risco de (entre)cortar o enlevo; no modo interrogativo, porém, fica patente que há novidades que apenas cada um pode experimentar e que, relativamente a uma edição modelar, persistem afectos tanto mais profundamente acalentados quanto mais se percebe o significado cultural desse livro, depois de serem escrutinadas as razões das escolhas do editor e serem conhecidos os efeitos decorrentes do seu trabalho.»

(1) A Academia Pedro Hispano -um círculo informal de amigos - é formada por José Ribeiro (editora Portugália), Henrique Bicha Castelo (médico cirurgião), Aires Nascimento (professor universitário de Letras), José Francisco (responsável de vendas da editora Dom Quixote), António Lobo Antunes (escritor), Vitorino (músico), José Manuel Franco (médico) e Janita Salomé (músico).

(2) Online em www.acad-ciencias.pt/files/Memórias/Aires A_ Nascimento/J V de Pina Martins.pdf
Adaptado de:

Na Ilha da Madeira: hospital improvisado - António Balbino Rego (1901)

Rego , António Balbino - Na ilha da Madeira : hospital improvisado , Porto : Vap. da Emprêsa Litteraria e Typographica, 1901. https://a...