quinta-feira, novembro 26, 2009

O menino e as quatro estações - Bernardo Trindade

O MENINO E AS QUATRO ESTAÇÕES

FOI COM 25 TOSTÕES, com a venda de um postal, que, sentado nos degraus de um escadote que ainda utilizo todos os dias, iniciei o meu caminho na livraria do meu pai. Tinha 6 anos e todos os clientes achavam graça a um miúdo tímido que se entretinha a “aviar” postais antigos como se fossem trocas de cromos com os amigos. A loja, naquele momento, era o meu mundo.
Todos nós, pais e irmãos, tínhamos vindo de Alcobaça, depois de tempos muito difíceis, que só
mais tarde compreendi, e vivíamos dentro da livraria. Pouca gente sabe ou recorda este facto, mas o certo é que o vejo como fundamental para a minha formação como homem e como livreiro.
A história da Livraria Campos Trindade é a história da minha família e este sítio, sem dúvida diferente e especial, nasce da força e perseverança da pessoa que hoje todos homenageamos, Tarcísio Trindade, o meu pai.
Não é fácil falar de uma pessoa que acompanhei todos estes anos, não é fácil falar de uma pessoa tão complexa, o meu maior e, ao mesmo tempo, mais inacessível amigo, que sempre me estendeu uma passadeira estreita, sim, mas incrivelmente firme, que me permitiu ser quem sou hoje no meio do livro antigo.
Foi a observar e a acompanhar diariamente o seu trabalho que aprendi tudo o que sei sobre esta profissão e seus segredos e a ele devo tudo o que consegui construir todos estes anos.
Conheci e conheço muitos livreiros, mas nenhum como o “senhor Trindade”, com um à-vontade tão grande no domínio do livro antigo português, com perfeita noção dos livros que via, comprava e vendia, tudo isto acompanhado de uma generosidade única, muitas vezes incompreendida, inclusive por mim.
O gozo desta profissão, no meu pai, sempre esteve no acto de descobrir os livros e também no que proporcionava aos amigos, clientes e livreiros ou futuros livreiros, iniciando também muita gente no comércio do livro antigo. Sempre descobrir e passar a alguém que, se quisesse, podia brilhar, mas o verdadeiro gozo, o de descobrir e trazer para o mercado coisas únicas e raras, já estava realizado e isso bastava-lhe. Foi esta postura que lhe permitiu, penso eu, ter hoje o estatuto que possui e a admiração de todos, os amantes do livro antigo e os seus colegas de profissão. Vivi algumas dessas descobertas, como quando folheei, ainda muito novo, um exemplar impecável dos dois volumes da primeira edição do Dom Quixote de Cervantes, ou mais tarde, quando descobrimos e comprámos juntos uma primeira edição dos Caprichos de Goya; e nasci de uma outra, da descoberta do primeiro livro impresso em português, o Tratado de Confissom, que permitiu aos meus pais juntar o necessário para iniciar uma vida a dois.
Espero ainda poder descobrir muito mais coisas e espero estar à altura de tudo o que o meu pai criou e proporcionou, agora que começo um novo capítulo da minha vida e da nossa livraria.
Com este 1.º Catálogo iniciamos um tipo de relação com os nossos amigos e clientes que não era habitual até aqui, mas que irá tornar-se realidade sempre que acharmos pertinente e necessário.

Bernardo Trindade

PRINCIPIOS DE GRAMMATICA PORTUGUEZA - Francisco de Andrade

Andrade , Francisco de - PRINCIPIOS DE GRAMMATICA PORTUGUEZA ,  Funchal: Typographia Nacional, 1844. https://archive.org/stream/pri...