quinta-feira, novembro 26, 2009

Damião Peres e o Padre Casimiro ou evocação de um príncipe do mundo dos livros - António Ventura

DAMIÃO PERES E O PADRE CASIMIRO
OU EVOCAÇÃO AMIGA DE UM PRÍNCIPE
DO MUNDO DOS LIVROS

JÁ LÁ VÃO MAIS DE TRINTA ANOS. Depois de um ano na Faculdade de Letras, numa passagem fugaz pelo curso de Germânicas, ingressei na Força Aérea Portuguesa, no curso de cadetes na Base Aérea da Ota. A partir de então, com um pouco mais de tempo depois da promoção a oficial, pude dedicar-me a uma paixão que tinha desde a escola primária – hoje já não se chama assim, talvez por ser politicamente incorrecto.
Essa paixão era e é a História. Em Lisboa, ensaiei as primeiras e tímidas incursões num mundo novo para mim, o mundo dos alfarrabistas. Alfarrabista! Palavra mágica, sonora, colorida, que foi a pouco e pouco sendo substituída por sinónimos mais tecnocráticos, mas sem dúvida menos belos. Numa dessas expedições entrei pela primeira vez no n.º 44 da Rua do Alecrim. Uma sala enorme, com estantes, mas desprovida das mesas que depois foram ali colocadas. Uma enorme pilha de livros bem encadernados acabados de chegar, chamou a minha atenção. Timidamente perguntei ao livreiro: «o que era aquilo». Ao que ele me respondeu: «é a biblioteca de Damião Peres». Comprei um desses livros, os Apontamentos para a História da Revolução do Minho em 1846, do padre Casimiro, e ainda me recordo do preço: 100$00.
Foi esse o meu primeiro contacto com Tarcísio Trindade e impressionou-me a sua simpatia e afabilidade para com um jovem desconhecido que entrava a medo nesse universo maravilhoso dos livros. Sempre que possível eu passava pela livraria na expectativa de encontrar qualquer coisa que podia ser um livro, um documento, uma gravura. Pequenas e grandes bibliotecas passaram por aquelas estantes. Recordo, a título de exemplo, a de Castelo Branco Chaves, com tantos livros sobre a França e a Revolução Francesa que me foram muito úteis, ou uma outra oriunda de Santarém, igualmente rica em obras sobre aquela temática. Nesses casos, a ida ao n.º 44 da Rua de Alecrim era em dias sucessivos, encontrando, por vezes, outros clientes com os quais havia sempre tema de conversa – António Valdemar, Bigotte Chorão, António Pedro Vicente…
Quantas histórias ali ouvi, quantas curiosidades, quantas informações úteis dadas por alguém que conhecia o meio como poucos e que, para além disso, aliava ao conhecimento uma generosidade sem limites. A pouco e pouco a relação livreiro-cliente foi sendo substituída por outra, onde a amizade e a mútua estima se tornaram cada vez mais evidentes e alargadas ao seu continuador, o Bernardo.
Ainda há pouco, olhando para a estante onde repousa o livro do padre Casimiro, recordei a história que antes relatei. E tantas histórias sobre tantos livros!
Para mim, Tarcísio Trindade é muito mais do que um livreiro que marcou profundamente o meio
lisboeta nas últimas décadas. É um Príncipe desse mundo mágico.Mas, acima de tudo, um Amigo e um Senhor. Um Senhor com um «S» grande, numa época em que impera a mediocridade, a venalidade e a falta de carácter.
Bem-haja por tudo, querido Amigo!

António Ventura

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Branco , Manuel Gomes – PORTUGAL E OS ESTRANGEIROS ,  Lisboa: Livraria A. M. Pereira, Imprensa Nacional, 1879-1895. 5 volumes.  In...