segunda-feira, abril 13, 2009

«Livraria Lello & Irmão» - António Amen

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O PERCURSO HISTÓRICO

DA LIVRARIA INTERNACIONAL À LELLO & IRMÃO – EDITORES

A LIVRARIA INTERNACIONAL de ERNESTO CHARDRON foi fundada pelo cidadão francês Ernesto Chardron, em 1869, tendo a sua sede na Rua dos Clérigos, n.º 96-98, Porto. Outrora empregado da Livraria Moré, Chardron projectava-se agora e doravante como invulgar editor publicando obras de relevo, como o"Tesouro da Literatura Portuguesa", de Frei Domingos Vieira ou o"Dicionário de Conversação", além de grande parte das obras do insigne romancista português, Camilo Castelo Branco.
Após o imprevisto falecimento de Ernesto Chardron aos 45 anos de idade, a casa editora foi vendida á firma LUGAN & GENELIOUX SUCESSORES, e depois do falecimento de Genelioux, ficou como seu único proprietário.
Mathieux Lugan. em 1981, a Livraria Chardron adquiria os fundos da Livraria A. R. da Cruz Coutinho e, bem assim, o espólio de outras duas antigas Livrarias desta cidade pertencentes, respectivamente, a Francisco Gomes da Fonseca e Paulo Podestá.

A 30 de Junho de 1894, Mathieux Lugan vendia a Livraria - Chardron a José Pinto de Sousa LELLO, que possuía uma Livraria na Rua do Almada, n.º. 18-20, fruto da sociedade com seu cunhado David Lourenço Pereira, com quem constituíra firma comercial em Março de 1881, dedicando-se ao comércio de livros e à edição. Sousa Lello, após o súbito falecimento de David Pereira no ano seguinte, entra em sociedade com seu irmão António Lello.

E é com essa razão social - JOSÉ PINTO DE SOUSA LELLO & IRMÃO que tomam conta da Livraria Chardron em 1894, mantendo-a até 1919.
Em 1898, entrava no novo espaço da Chardron o fundo bibliográfico da Livraria Lemos & C.A, fundada pelos irmãos Dr. Maximiliano de Lemos e Manuel de Lemos. Em 1906, era construído na Rua das Carmelitas, n.º. 144, o edifício que se tornará mundialmente famoso pelo seu estilo e decoração interior.

A 24 de Maio de 1919, mudou-se a razão social para LELLO & IRMÃO, LDA. , entrando para a sociedade Raul Reis Lello, filho de António Pinto de Sousa Lello.
Mais tarde, em 1924, seguiram-se José Pinto da Silva Lello e Edgar Pinto da Silva Lello. Em Outubro de 1930, transformou-se o nome em LIVRARIA LELLO, LDA, entrando para a sociedade José Pereira da Costa, genro de António Pinto de Sousa Lello.
Um lustro volvido, de novo se altera a razão social, passando a denominar-se LELLO & IRMÃO. por afastamento de José Pereira da Costa, Raul Reis Lello falecerá em 1949 e António Pinto de Sousa Lello, por sua vez, em 1953. Seguiram-se, até aos dias de hoje, José Pinto da Silva Lello, falecido em 1971 e Edgar Pinto da Silva Lello que faleceu em 1989.

A LIVRARIA LELLO & IRMÃO

O edifício da chamada Livraria Chardron ou, mais exactamente, Livraria Lello & Irmão fica situado na Rua das Carmelitas, n.º. 144, Porto, e foi mandado construir propositadamente para esta finalidade, sendo inaugurado a 13 de Janeiro de 1906, devendo-se este projecto a Xavier Esteves, um distinto engenheiro da época.
Em estilo neogótico, possui uma magnífica fachada, formada por um amplo arco abatido, cuja entrada se divide numa porta central, ladeada por duas montras que constituem verdadeiramente os expositores públicos da Livraria. Sobre este arco, há uma janela tripla, fechada na platibanda e separada das pilastras, as quais são encimadas por coruchéus originais. Dos lados da janela, destacam-se duas figuras pintadas, da autoria de José Bielman, simbolizando uma a Arte e a outra a Ciência. O resto da fachada completa-se com ornamentação fitográfica e com o nome da livraria. De realçar o rendilhado que encima o edifício, todo ele um autêntico monumento artístico que já mereceu classificação de património nacional.
Entrando no interior da Livraria, o visitante sente-se envolvido por um ambiente acolhedor, onde pontificam os livros e uma decoração impressiva.

Uma vasta sala, com uma galeria que dá acesso a uma escada ornamental, onde correm algumas mesas que servem para exposição dos livros. Bancos em madeira e revestidos a couro e estantes a toda a altura desta sala perfazem o espaço interior próprio de uma livraria actual, mas que guarda a memória do passado.

Nos pilares, à esquerda e à direita, distinguem-se os bustos de ilustres homens de letras: Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Tomás Ribeiro, Teófilo Braga e Guerra Junqueiro.

Obra do escultor e distinto artista Romão Júnior, estão cobertos por baldaquinos, rendilhados em estilo gótico. O tecto, lavrado, resguarda no centro uma luminosidade diáfana que provém do amplo vitral em que se desenha o ex-libris de Lello & Irmão, Lda., com a conhecida divisa ' Vecus in Labore". Como escreveu um afamado jornalista do princípio do século, "a riqueza de tons do grande vitral, o recorte gracioso das janelas, a balaustrada da galeria e os grandes candelabros situados nos ângulos que demarcam esse espaço, as linhas das ogivas que se entrelaçam no tecto sob os florões e que vêm morrer nas nervuras que correm pelos pilares até às mísúlas, deixam o visitante deslumbrado".

A abertura da Livraria Lello provocou grande sensação nos meios cultos portuenses da época. A imprensa referiu-se-lhe com largo desenvolvimento, havendo a registar a cobertura feita pelos jornais A Voz Pública, O Primeiro de Janeiro, O Norte, Diário da Tarde, Jornal de Notícias, O Comércio do Porto e A Palavra, todos portuenses, e ainda, da capital, O Mundo, O Século, o Diário de Noticias, Correio da Europa, Ocidente. No Brasil a repercussão deste acontecimento propalou-se pelos jornais Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro e pelo famoso periódico O Estado de S. Paulo.
De facto, nesse distante 13 de Janeiro de 1906, por volta do meio-dia, a baixa portuense acotovelava-se para ver as individualidades mais destacadas das Letras portuguesas, professores universitários, artistas, jornalistas, homens políticos e comerciantes do Porto, entre os familiares dos proprietários, todos se dirigindo para o interior da LIVRARIA LELLO, onde se procederia á solenidade de abertura.
Presentes, figuras como Guerra Junqueiro, Abel Botelho, Duarte Leite, João Grave, Bento Carqueja, António Arroio, Eduardo Pimenta, Júlio Brandão, Rocha Peixoto, Justino de Montalvão, João de Oliveira Ramos, Lopes Teixeira, Sã de Albergaria, Alexandre de Barros, João Oliveira Ramos, Marques de Abreu, Ayres de Carvalho, Aurélio da Paz dos Reis, António Lopes Guimarães, António Joaquim Nunes,
José Leite de Vasconcelos, José Barreiros, Afonso Costa, Xavier Esteves, Dr. Queirós e Castro, Drs. Eduardo de Sousa e Germano Martins, Dr. José Carlos Machado, Acácio Pereira, .Delfim Pereira da Costa, Uno Ferreira do Nascimento, Graça e Cruz, José Pedrosa e muitos outros. ..
Feita a visita, guiada, a todo o interior do edifício e o beberete com champanhe, o Senhor José Lello agradeceu a presença dos convidados, dos quais se destacam então para brindar e proferir elogiosas palavras aos Editores/Livreiros o poeta Guerra Junqueiro, Xavier Neves, autor do projecto do edifício, e o director do jornal
O Comércio do Porto, Bento Carqueja, que exaltou a iniciativa dos irmãos Lello. Seguiu-se no uso da palavra o escritor Abel Botelho vindo expressamente de Lisboa para este acto que saudou também o preito de homenagem ali prestado aos escritores Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, Teófilo Braga e Antero de Quental.
Depois, entre conversas literárias e felicitações, os presentes deixaram consignadas no Livro de Ouro da Livraria as suas impressões e votos de futuro sucesso para a Casa Lello. Abel Botelho, por exemplo deixou assim registado o seu testemunho: "...erigir um tão formoso templo ao divino culto da Emoção e da Ideia, é um grande acto de benemerência, e que, pelos seus largos e fecundos resultados há-de ligar perduravelmente os nomes de LELLO & IRMÃO ao reconhecimento nacional."
Foram ainda recebidos telegramas e cartas endereçados por nomes Ilustres das nossas letras e da Cultura como Teófilo Braga, José Pereira de Sampaio ( Bruno ), Xavier da Cunha ( da Biblioteca Nacional de Lisboa ), e ainda de Luís Magalhães, Joaquim de Araújo, (então no estrangeiro), Bernardino Machado, Júlio de Matos, António de Sousa, Guedes de Oliveira, Ricardo Malheiro, Augusto de Castro, Delfim Guimarães, Alfredo de Magalhães, Alfredo Pimenta, Alfredo Mesquita, H. Brunswick, etc.
Pela tarde, prolongou-se a curiosidade dos presentes em folhear livros editados por Lello & Irmão, desde as obras dos grandes escritores portugueses, incluídas em colecções encadernadas brochadas, às grandes obras ilustradas, passando pelas obras de leitura popular, ainda tão apetecidas pelo público leitor. No rol dos Autores da Lello, bastará citar as obras de Eça de Queiróz, Camilo Castelo Branco, Basílio Teles, Guerra Junqueiro, Sampaio (Bruno), Amorim Viana, Cunha Seixas, Antero de Quental, Teófilo Braga, Fialho de Almeida, Abel Botelho, Tomás Ribeiro, Júlio Brandão, Rocha Peixoto, Padre António Vieira, Padre Manuel Bernardes, João Grave, José Caldas, Coelho Neto, Sílvio Romero, Flaubert, Renam, Herpert Spencer, E. Haeckel, Strauss, Shakespeare, Louis Buchner, etc.

Assim, no Porto, abria as portas aquela que se tornaria uma das principais Livrarias do País - conhecida mesmo no estrangeiro, cujos factos perduram ainda na memória culta portuense...
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In: http://amen.no.sapo.pt/Lello%20e%20Irmao.htm

PORTUGAL E OS ESTRANGEIROS - Manuel Gomes Branco

Branco , Manuel Gomes – PORTUGAL E OS ESTRANGEIROS ,  Lisboa: Livraria A. M. Pereira, Imprensa Nacional, 1879-1895. 5 volumes.  In...