sábado, abril 02, 2011

Da Madeira para o Hawaii: A Emigração e o Contributo Cultural Madeirense - Susana C. O. Castro Caldeira (2010)


Caldeira, Susana Catarina de Oliveira e Castro - Da Madeira para o Hawaii: A Emigração e o Contributo Cultural MadeirenseColecção Teses, n.º 7, Centro de Estudos de História do Atlântico, 2010.

RESUMO (retirado da própria obra):

No início do século XIX, a Ilha da Madeira encontrava-se em sérias dificuldades económicas e sociais. A queda do comércio vinícola revelou-se insuportável para a sua economia. O recenseamento militar, que era uma possibilidade indesejável, os baixos salários, o desemprego, a pobreza generalizada e a fome estavam a abalar este espaço insular. Estes factores, bem como a sobrepopulação, para a época, levaram a um padrão de vida apertado, afectando, principalmente, a população rural que viu, na emigração, uma oportunidade para começar de novo e, assim, fugir da catástrofe económica.
Durante a segunda metade do século XIX e início do século XX, cerca de 400.000 trabalhadores imigrantes, de diferentes partes do mundo, foram para o Hawaii com contratos de trabalho. Primeiro, foram os chineses, em 1852. A imigração portuguesa começou com o primeiro grupo de 120 madeirenses que chegaram lá no dia 29 de Setembro de 1878, a bordo do navio Priscilla, respondendo a uma crescente demanda de mão-de-obra para as plantações de açúcar. Depois desse primeiro embarque, milhares de madeirenses seguiram o seu sonho de uma vida melhor no que eles chamavam a "Terra Nova". De longe, o maior grupo de portugueses era oriundo da Madeira tendo, assim, constituído o corpo principal dos antepassados da comunidade portuguesa, no Hawaii.
Esta saga parece ter representado uma página, em branco, na historiografia madeirense até aqui.
Reconstituir o rumo destes madeirenses, descobrir, fundamentadamente, as razões pelas quais esse percurso foi feito, assim como traçar o rasto da presença da cultura portuguesa, em geral, e madeirense, em particular, nas ilhas havaianas, tornou-se o fulcro deste projecto de investigação.
No Hawaii, os madeirenses integraram um sistema que consistia em trabalhar, numa plantação, durante vários anos, ao fim dos quais poderiam optar por permanecer, como trabalhadores livres, ou adquirir um pequeno pedaço de terra. Familiarizado com o trabalho manual e conhecimentos sobre métodos agrícolas, o trabalhador madeirense alcançou, rapidamente, a posição de luna [superintendente], nas plantações. Nos anos difíceis do trabalho, da pobreza e da perplexidade, os madeirenses foram amparados pela sua adesão à Igreja, à força dos laços familiares, aos jornais de língua Portuguesa e às suas associações e sociedades. Durante largos anos, mantiveram a sua língua, os seus costumes e as suas danças e, embora a princípio vivessem em condições precárias, melhoraram, gradualmente, o seu estatuto. Aspiravam a ter as suas próprias casas e os seus próprios lotes de terra, superaram os obstáculos do preconceito e da incompreensão e desempenharam cargos de importância em quase todas as fases da vida havaiana.
Em certa medida, o isolamento entre os diversos grupos étnicos, ao longo do século XIX, permitiu aos portugueses desenvolverem os seus próprios padrões, partilhados étnica e culturalmente. À medida que passavam de imigrantes a residentes, contribuíram muito para a sua nova sociedade: construindo igrejas e organizando festivais. A dança madeirense, a música e as canções enriqueceram as já complexas formas culturais havaianas. Assim completaram as artes e ofícios madeirenses fazendo sentir, mesmo à mesa do jantar havaiano, o impacto da sua presença, nas ilhas.
Na passagem para o século XX, toda a comunidade portuguesa [estimada em cerca de 20.000] manteve uma forte corrente de emigração, para o Hawaii, até 1913. O Português, que foi ensinado, na Universidade do Hawaii, até 1956 e, mesmo depois, por alguns tutores privados, ainda é falado por alguns descendentes, sendo que o sotaque e os termos utilizados podem denotar uma origem madeirense. Nomes como Abreu, Correia, Teixeira, Freitas, Pereira, Silva e Camacho são, de igual modo, uma parte do que resta do seu legado, bem como a gastronomia madeirense que faz parte dos menus do Hawaii.
No Hawaii, os portugueses deixaram marcas na Arquitectura, em forma de muros de pedra emparelhada. Há, também, alguns edifícios com nomes como Faria, Mendonça e Araújo. Algumas igrejas têm nomes portugueses e há cerca de trinta ruas imortalizando a presença portuguesa e a sua importância nas ilhas. As associações e clubes de origem portuguesa preservam a herança deixada pelos seus antepassados. Em muitas reuniões de portugueses, no Hawaii, o Hino Nacional português ainda é tocado. Os descendentes dos portugueses levam, ainda, Portugal e a Madeira, no coração.

Nota: Magnífica tese de mestrado da actual coordenadora do Centro Cultural John dos Passos, Drª Susana Caldeira, à qual expresso os meus parabéns pela oportunidade e excelência da investigação.  

PORTUGAL E OS ESTRANGEIROS - Manuel Gomes Branco

Branco , Manuel Gomes – PORTUGAL E OS ESTRANGEIROS ,  Lisboa: Livraria A. M. Pereira, Imprensa Nacional, 1879-1895. 5 volumes.  In...