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domingo, março 15, 2009

«S. Vicente e Madrasta Natureza» - Dr. Alberto Vieira

Os factos ocorridos com as últimas chuvadas do presente ano em S. Vicente não são novidade para as suas populações e tão pouco para todo o arquipélago. A História regista que a ilha desde o século XIX esteve sempre sujeita aos efeitos catastróficos destas aluviões e que estas são resultado da ocupação descuidada do espaço.
O processo de ocupação da ilha a partir do século XV foi uma permanente batalha contra este perigo eminente, uma vez que se inicia sempre a partir do leito das ribeiras. Tudo isto, certamente pela facilidade de penetração mas também pelo aproveitamento dos mais ricos solos de aluvião. As principais povoações da ilha partem sempre do leito de uma ribeira ou anicham-se nas suas margens. Deste modo o convívio com o perigo das cheias é uma constante.

AS ALUVIÕES. A História do arquipélago registam que as aluviões foram uma constante nos séculos XIX e XX(1803, 1815, 1842, 1848, 1856,1876, 1895, 1901, 1920, 1921, 1926, 1929, 1931, 19391945, 1956, 1970, 1972, 1977, 1979, 1984, 1989, 1990, 1991, 1993, 1997, 1998). Destes ficaram célebres os de 1803 e 1842 pela devastação que causaram em toda a ilha.
A incidência maior destas aluviões fez-se sempre sentir na vertente sul mercê do desaparecimento do arvoredo que cobria toda a vertente e que foi substituído por terrenos de cultivo, casas de habitação ou para ser usado como combustível nos engenhos açucareiros, no decurso dos séculos XV e XVI. O Norte da ilha, porque esteve menos sujeito a esta pressão, os efeitos foram sempre muito menores. Mesmo assim são assinaláveis os estragos em alguns destes momentos. A aluvião de 1856 incidiu com mais força nas freguesias rurais, sendo evidentes os estragos causados em S. Vicente.. Esta situação repete-se em 1895 e 1920.

S:VICENTE. Em S. Vicente a orografia condicionou de modo evidente a vida das populações que cá se fixaram a partir do século XV. O isolamento foi uma constante e tanto mais agravado pelas intempéries que em terra e no mar condicionavam a comunicação com as demais localidades.
A ilha foi assolada ao longo da história por inúmeros aluviões que também fizeram estragos no Norte. Aqui, mercê das encostas íngremes desbravadas pela ocupação humana, as grandes bátegas de água e chuvas ininterruptas foram sempre sinónimo de tragédia.
Até à década de setenta do século XIX a informação sobre esta realidade é escassa porque se perdeu toda a documentação municipal no turbilhão das revoltas populares e as referências que dispomos surge em conjunto com o resto da ilha. Todavia, a partir desta data a documental municipal, nomeadamente os livros de vereação, registam com frequência as diversas intempéries que assolaram o concelho, por força das reclamações dos moradores quanto aos prejuízos em pessoas e haveres, como na rede viária a cargo do município.
Em 1876 Joaquim Fernandes morador no Lanço reclama perante a vereação os prejuízos causados no seu sítio pelas chuvadas de 31 de Outubro. Os danos não se ficaram apenas pelos caminhos do Lanço pois atingiram todo o concelho, deixando-os quase intransitáveis, pelo que a Vereação foi forçada a apelar ao Governador Civil no sentido de serem dados meios financeiros para a imediata reparação.
A realidade repete-se ao longo do tempo e quase todos os anos é necessário, após o inverno, reparar os caminhos, refazer as pontes e levantar as quebradas. Foi assim em 1888,
como em 1896, onde o presidente do município refere que o "alluvião de desgraça que ha um anno a esta parte se teem succedido em todo o concelho... onde a ribeira na sua impetuosa corrente levou para o mar, pontes, caminhos...". Todavia, graças à pronta colaboração de todos foi rápido o restabelecimento da circulação dos caminhos, ficando apenas a aguardar solução aquele que sobe na margem da ribeira junto á vila.
As inundações que ocorreram a 2 e 3 de Outubro de 1895 provocaram grandes estragos nas freguesias de S. Vicente, Boaventura e Ponta Delgada, que ficaram incomunicáveis. Na Ribeira Grande em S. Vicente ficaram 25 famílias sem casa, enquanto nos Enxurros em Ponta Delgada uma quebrada provocou elevados estragos. A ponta de vila entupiu e fez transbordar a água que alagou a vila. A sorte foi que a armação de pedra não resistiu à força da água que a fez desabar. De tudo isto deixou o Feiticeiro do norte um retrato em "as inundações de 1895":

Vejo os caminhos do norte
que estão todos arrombados
não se pode transitar
nada, de lado p’ra lado
Passa-se em rochas medonhas
quais veredinhas de gado,
até parece vergonha
do nosso excelente estado.

Já em pleno século XX as chuvas continuaram a atormentar as gentes do norte. Logo em 1902 as chuvas fizeram elevados estragos, tornando intransitável a estrada real ao Saramago. Em 16 de Novembro de 1909 os estragos causados nos caminhos e casas, nomeadamente no Laranjal e no Lanço, são elevados, o que levou a Vereação a um orçamento suplementar para cobrir a nova despesa.
Na década de vinte esta realidade aumenta de intensidade. Em Fevereiro de 1921 os estragos foram tantos em todo o concelho que passado mais de um ano ainda se aguardava a sua reparação. Em 1927 o mês de Dezembro voltou a ser invernoso, causando elevados danos, de modo especial na principal estrada que liga pela Encumeada ao Funchal. Passados dois anos abateu-se uma grande calamidade sobre a freguesia. A 6 de Março de 1929 pelas 10 h da manhã uma quebrada no alto da Vargem vitimou 29 famílias e causou danos, avaliados em mais de dois mil contos. Os dados assim o provam: 32 mortos, perda de 100 palheiros e igual número de cabeças de gado. O tema correu em toda a ilha e foi manchete, por algum tempo nos jornais locais, obrigando o Governador Civil a deslocar-se ao concelho a 8 de Março.
Não parou aqui a fúria do tempo pois que em 28 de Outubro de 1934 e Janeiro de 1952 novas trombas de água se abateram sobre o concelho provocaram de novo elevados prejuízos materiais e a destruição de inúmeras estradas e pontes, que só foi possível recuperar com apoio de subsídios da Junta Geral e do Governo Central.

A LOCALIZAÇÃO DA VILA. Não se sabe ao certo onde começou edificação da primeira Vila, resultante da determinação do alvará de 1744 que criou o concelho. É muito provável que ela tenha sido traçada na margem esquerda da Ribeira, local abrigado do olhar cobiçoso vindo do mar, onde desde o século XV se assentara a nova igreja. O sítio nunca ofereceu grande segurança aos moradores, pela braveza da vizinha ribeira na época invernal. Já em 1684 o vigário referia a situação de temor, que terá afugentado os moradores que passaram a residir na Vargem, uma vez que as cheias de 1682 haviam posto em perigo a igreja. Mesmo assim os vicentinos não abdicaram deste recanto e enquanto tardava a construção o muro de protecção os moradores da vila viviam em permanente alerta na época invernal.
O temor das cheias da ribeira, que terá aumentado com as aluviões do princípio do século XIX, levou os moradores da vila a procurar sitio seguro. Em 1817 o retrato da Vila marcadamente desolador: as casas estavam arruinadas sem moradores que se haviam refugiado, de novo, na Vargem, por isso, Paulo Dias de Almeida atreve-se a sugerir que deve ser este lugar a sede da freguesia e que a vila deveria ser transferida para Ponta Delgada. Mas a solução imediata estava na construção de uma muralha a oeste da ribeira de modo a evitar que galgasse as margens e atingisse a vila. A reclamação de muralha é antiga e repete-se em pleno final do século XIX com as aluviões.
Perante a ineficácia das autoridades, os moradores insistem na reclamação de medidas, em momentos de aflição. A 2 e 3 de Outubro de 1895 a vila ficou inundada sendo os prejuízos elevados. A Câmara do Funchal ocorreu em 200$000 réis. Já em 1901 os moradores reclamam de novo a construção da muralha que desvie o curso da ribeira pois que "em todos os invernos é ameaçada, e por vezes tem arrastado para o mar algumas propriedades particulares, e tem posto em risco a igreja parochial, os edifícios das repartições públicas e as casas que formam a povoação..."
O município decidiu-se pela elaboração de um novo plano urbanístico para a vila que contemplava a sua mudança para local mais apropriado. O plano foi divulgado no Diário de Notícias do Funchal a 21 de Março de 1929 e constava de um edifício cujo custo estava avaliado em 330 contos e três arruamentos. Em 1930 dava-se conta do apertado recinto da vila não permitia a sua expansão de modo a torná-la moderna, com a construção dos paços do concelho. A vila nova ficaria implantada no Poiso, no actual espaço de implantação da escola, sendo a planta feita por António Agostinho da Câmara.
Ao empenho dos munícipes opõem-se a falta de meios. O pouco ou nenhum apoio das autoridades distritais e do governo central fez com que os planos de uma nova vila e paços do concelho não passassem de uma esperança permanentemente adiada. A grande necessidade era a construção de um edifício para os paços do concelho, onde fosse possível reunir todas as repartições dispersas em edifícios impróprios e distantes da vila. Para isso buscava-se apoio do Governo Central, o que nunca deve ter sido atendido uma vez que em 1959 se procedeu a um plano de urbanização da Vila a cargo do arquitecto Nunes Fernandes e a vila persistiu até hoje no primitivo local.

«S. Vicente um Breve Balanço do Século XX» - Dr. Alberto Vieira

O século XX define um momento importante na História do concelho que o retirou do abandono e o projectou para a afirmação no norte e em toda a ilha.
O isolamento a que o Norte foi votado desde o século XV foi paulatinamente desaparecendo de modo que hoje esta é uma realidade que pertence ao passado. Hoje bastam trinta minutos para se alcançar o concelho desde o Funchal quando no século XIX quem o pretende-se fazer necessitava de várias horas. Tudo isto começou em 1914 com a primeira estrada que estabeleceu a ligação por automóvel ao Funchal. Entre 1928 e 1953 montou-se a rede viária e a circulação foi uma realidade, apagando as distâncias aos locais mais recônditos como o Norte. A conclusão deste plano de abertura do Norte ao Sul só resultou em pleno após o 25 de Abril de 1974 já no último ano do milénio com a abertura do túnel que liga a Serra de Água ao Rosário..
A chegada do automóvel matou o vapor costeiro e anunciou o progresso que o novo meio de locomoção foi portador. Tudo isto evoluiu de tal forma que hoje estamos sob a hegemonia do automóvel e todo o progresso de uma localidade se subordina à existência de uma rede viária. E na verdade o concelho dispõe hoje de uma das melhores redes viárias.
Ainda antes do automóvel chegou em 1911 o telefone que permitiu a circulação das notícias de forma rápida e imediata e que foi mais um contributo para encurtar distâncias e amenizar o impacto do isolamento..
O progresso, hoje visível no bem estar das populações residentes, é fruto da luta hercúlea em favor do progresso que marcou o século XX. Esta realidade é mais conquista do processo autonómico do que das anteriores conjunturas políticas. Nem a República, nem o Estado Novo deram olhos às condições de vida dos madeirenses e muito menos os vicentinos.
O abandono isolamento e dificuldades associados à conjuntura da guerra nos anos quarenta conduziram a uma quase sangria populacional com a fuga do campo para a cidade ou a emigração para o Brasil ou Venezuela. Fugia-se da fome, das dificuldades do quotidiano, mas também à falta de condições de apoio na doença e no acesso à cultura. Os médicos eram raros e morria-se em casa ou na rede em viagem desesperada ao encontro de um dos dois concelhios.
As condições de vida das populações não eram as melhores. As casas de habitação careciam de condições e a partir dos anos quarenta as recomendações da câmara apontavam no sentido de uma melhoria das condições de salubridade. O cuidado e a preocupação com a saúde e bem estar dos vicentinos foi um campo de batalha permanente do médico municipal que conduziu à criação de uma rede de fontanários públicos, acabando com o consumo da água da levada, e ao estabelecimento de uma rede de distribuição pública de água que só o 25 de Abril levou a todo o concelho e casas dos munícipes.
A água, em que o concelho sempre foi rico, é fundamental à vida destas gentes e de toda a ilha. O concelho sempre primou pela riqueza deste bem, ao que parece considerado o "petróleo" do século XXI. E desde os anos quarenta sentiu-se a importância desta riqueza para quebrara as assimetrias hídricas do arquipélago. O plano de aproveitamento hidroeléctrico e hidro-agrícola fez assentar em S. Vicente um dos principais pilares. As águas das nascentes e mananciais do concelho foram cedidas a troco de contrapartidas, eu tão pouco corresponderam às promessas, uma vez que a electrificação do concelho só se
concluiu com o processo autonómico. Em1956 o concelho recebeu a primeira iluminação pública de electricidade, mas para a maioria a luz eléctrica continuou a ser uma miragem.
O progresso foi possível através de um conjunto de infra estruturas que melhoraram as condições de sobrevivência das populações, mas também da necessária aposta na educação. Por muito tempo a ilha esteve esquecida e do norte parece que ninguém se lembrou, Apenas em 1947 com a criação da Junta Geral esta se tornou prioritária.. O analfabetismo era generalizado sendo em 1944 de 84% de população e o atraso correspondia a esta medida. Hoje, passados mais de cinquenta anos a realidade é outra.
Ao nível do ensino a mudança aconteceu a partir da década de sessenta. Em 1965 instalou-se um colégio para o ensino secundário que abriu as portas à formação da juventude do norte da ilha. Foi a partir daí que se afirmou na sociedade madeirense uma geração de nortenhos.
Os progressos notados no decorrer dos anos no século XX acompanham o processo de maior intervenção da instituição municipal e a maior capacidade de actuação dos madeirenses através da autonomia atribuída nos anos quarenta. Deste modo podemos dizer que o progresso acompanhou a par e passo a afirmação da autonomia das instituições de poder local e regional.
O poder municipal viveu sempre em casa alheia e sem as mínimas condições. Por outro lado o recinto onde estava instalada a vila não parecia o melhor, estudando-se em 1929 a mudança para o alto do Poiso. Desde a década de sessenta que o projecto dos paços do concelho foi adiada para a década de setenta. A dignificação e afirmação das instituições passa obrigatoriamente pelas condições adequadas ao seu funcionamento. De novo a plena concretização desta ancestral ambição só se vislumbra a partir de 1974.
A população, embora maioritariamente analfabeta, teve sempre presente o sentido de sua responsabilidade e defesa dos seus interesses. Foi isto que vimos, por exemplo, com a revolta de 1924 contra o imposto "ad valorem". As elevadas tributações directas e indirectas foram sempre consideradas por todos como um pesado fardo uma vez que ninguém via os frutos da sua aplicação em benefício de todos, tendo em conta que seguiam para o Terreiro do Paço.
A reclamação das populações ia ao encontro dos seus interesses, numa região onde os recursos eram escassos e o esforço humano muito superior à riqueza gerada.
Um dos aspectos mais assinaláveis deste século e que ficou na memória de todos quantos o viveram e presenciaram foi sem dúvida a quebrada que enlutou a Vargem, levando para a morte 40 dos residentes. Foi uma catástrofe que se abateu sobre S. Vicente e que para além das perdas humanas apagou 100 palheiros e igual número de cabeças de gado, uma das principais fontes de rendimento destas gentes. Neste momento a produção leiteira era uma das actividades mais importantes da economia local. Em 1943 nos 15 postos de desnatação transformaram-se 150.000 litros.
São Vicente sempre foi uma área rica em termos agrícolas. A vinha e os canaviais desfrutavam deste espaço e atraiam a atenção e empenho dos agricultores. O concelho sempre se afirmou como uma região vinhateira. Foi assim no século XIX e continuou pelo século XX, assumindo nos últimos anos, por força da valorização do vinho na economia regional, o papel mais destacado na economia familiar dos poucos agricultores.
O século XX ficará para a História como o momento em que aqui se viveram as horas mais dramáticas, com a quebrada de 1929 ou a guerra de 1939-45. Muitos não conseguiram resistir ao isolamento, dor e miséria e, por isso, saíram em busca de melhores condições noutras paragens. Os que conseguiram resistir foram o alento necessário para que se abrissem as portas do progresso.
Em cem anos que passaram na História do concelho contam-se apenas vinte e cinco de progresso imparável que procuraram compensar os muitos anos de abandono e
letargia. É este contraste entre o último quartel do século e os momentos que o antecederam a característica mais evidente que fez com que S. Vicente entrasse no novo século e milénio sob os auspícios do progresso e da afirmação.
Ao menos para São Vicente não se confirmaram as teses apocalípticas, sendo a entrada no novo milénio triunfal. A autonomia venceu os velhos do Restelo que nos legaram ao abandono e projectou-nos para um futuro de promissão.
A História através deste apelo e memória do passado serve precisamente para chamar à atenção dos presentes do quanto foi feito nos últimos anos em prol do progresso e afirmação de S. Vicente. Rememorar tudo isto é uma questão de justiça, como uma forma de homenagem aos nossos antepassados.

«S. Vicente. O Dia do Concelho» - Dr. Alberto Vieira

A CRIAÇÃO do CONCELHO. A presença da estrutura municipal na encosta norte foi tardia. Somente em 1744 tivemos o primeiro município com sede em S. Vicente, com alçada sobre a área do Porto Moniz. A revolução liberal propiciou uma transforma-ção da estrutura de poder municipal iniciada com a reforma de Mouzinho da Silveira, e teve plena expressão na lei de 25 de Abril de 1835 que deu origem ao sistema adminis-trativo contemporâneo.
A tradição diz-nos que o dia do concelho acontece quase sempre na data de criação do município. Embora isto não seja norma estatuída é certo que a maioria dos municípios insiste em valorizar a data de criação e, quando esta não está devidamente esclarecida, a da sua instalação. Num e noutro caso estamos perante um dos momentos mais significa-tivos da vida do concelho. Obedecem a este princípio os municípios de Santa Cruz, Funchal, Câmara de Lobos e, enquanto os da Calheta, Ribeira Brava, Ponta de Sol, Por-to Moniz, Porto Santo, São Vicente, Santa Cruz e Machico insistem no dia do santo patrono. Apenas o de Santana se celebra no dia 25 de Maio em memória da inauguração do actual edifício dos paços do concelho em 1958.
S. Vicente é assim um dos municípios da região que fez coincidir o dia do concelho com o do santo patrono, S. Vicente, que também domina o brasão de armas concelhio. A decisão foi tomada pela vereação de 25 de Outubro de 1962, de forma a fazer cumprir o estabelecido no decreto de 4 de Janeiro de 1952. O dia 22 de Janeiro, dia de S. Vicen-te, o orago da freguesia, foi o escolhido tendo em conta apenas a importância que assu-mia a festividade para a população de S. Vicente. Acontece que o concelho engloba também as freguesias de ponta delgada e Boaventura.

FREGUESIA E PARÓQUIA: A Revolução Liberal abriu uma nova era para admi-nistração municipal, iniciada com a reforma de Mouzinho da Silveira. Assim, pela carta de lei de 25 de Abril de 1835, o território foi dividido em distritos, concelhos e fregue-sias. Daqui resultou para a Madeira, o aparecimento de novos municípios. Desta vez, a costa norte da ilha foi de contemplada com a criação dos municípios de Santana e Porto Moniz.
Não obstante a designação de freguesia ser de origem eclesiástica, o certo é que hoje é mais conhecida com estrutura administrativa da sociedade civil. Foi com a carta de lei de 25 de Abril de 1835 que começou a delinear-se a mudança., que se consolidou defi-
nitivamente com o código administrativo de 1878, conhecido como o código de Rodri-gues Sampaio. A 26 de Novembro de 1835, numa reformulação sem precedentes da estrutura administrativa, foram criadas as Juntas de Paróquia, que perduraram pouco tempo, uma vez que foram extintas em 1836. De acordo com a lei de 25 de Abril foram-lhe retribuídas as funções eclesiásticas, acabando a situação com o código de 1842.
Com o Código Administrativo aprovado em 1878 ficou definitivamente estabelecido a existência de uma estrutura de poder abaixo do município, fazendo-se coincidir com a área da circunscrição religiosa, daí ficar conhecida como paróquia civil. Com a lei nº.621 de 23 de Junho de 1916 passou a designar-se de freguesia. Daqui resulta a confu-são, que é comum estabelecer-se entre a freguesia como circunscrição religiosa e como jurisdição religiosa.
A freguesia, tal como hoje a conhecemos, uma vez que se consolidou a designação de paróquia para a estrutura religiosa, surge apenas com a nomenclatura actual em 1878. Perante esta situação não é fácil encontrar uma data individualizada para a evocação de cada uma das freguesias, que surgiram como resultado da reforma administrativa de 1878.

OS SIMBOLOS. Somente em 1745 com o exercício pleno do município de S. Vicente, o norte tem direito ao registo documental das suas preocupações e realidade quotidiana, quando trazidas à tribuna do senado da câmara. Apenas, a incúria de alguns e a fúria dos revoltosos em 1868 fizeram com que o inicial registo da nossa memória colectiva se apagasse. As gentes do concelho reuniram-se na vila e em forma de protes-to queimaram toda a documentação do arquivo municipal.
A criação de uma vila na vertente norte era uma necessidade cada vez mais premente em face do desenvolvimento económico e social que vinha adquirindo com o surto da economia vitivinícola. A sua dependência em termos administrativos da sede da capita-nia em Machico prejudicava em muito os direitos destas gentes que tinham necessidade de aí se deslocarem para resolver as mais diversas questões. O acesso por terra ou por mar era difícil quando não impossível, ficando assim as populações desta área à mercê dos caprichos dos senhores de Machico. Deste modo a reivindicação do estatuto de vila para o lugar de S. Vicente ia ao encontro das cada vez mais incessantes solicitações das gentes da encosta norte. Este era o único processo de corresponsabiliza-las no governo da sua área e de motiva-las para o progresso da mesma.
O pelourinho ou picota, era uma coluna de pedra que se erguia na praça central das vilas e que simbolizava o poder da justiça, é uma realidade do mundo português e chegou a todo o lado onde os portugueses estabeleceram vilas, como sedes de municípios. Era o símbolo da jurisdição e autonomia do concelho. Era aí que se exercia a justiça, proce-dendo-se à aplicação das penas de açoites ou mutilação. Ao mesmo tempo neste espaço afixavam-se os editais, anúncios e outras ordens municipais de interesse público. Posta-do no sopé desta coluna de pedra o pregoeiro da câmara, após o toque de caixa a chamar a população, divulgava as ordens, editais e alvarás camarários.
Até à Revolução Liberal o sistema de administração municipal expressava-se de forma simbólica pelo foral, selo e bandeira, a picota e a elevação do lugar sede à categoria de vila. Isto não aconteceu com os primeiros municípios instalados na sede das três capita-
nias, que ficaram subjugados ao poder dos capitães. Apenas a partir da morte do Infante D. Henrique em 1460 estes ganharam maior autonomia. Todavia a sua plena funcionali-dade só acontecerá, pelo menos no caso do Funchal, com o rei D. Manuel. Foi ele que em 1486 concedeu aos funchalenses terrenos para se construir os paços do concelho e a picota.
O Pelourinho deveria estar instalado na praça defronte da câmara, mas acontece que foi instalado noutra praça, que ficou conhecida com o seu nome, e que era o principal cen-tro de animação comercial. A primeira referência surge em finais do século XVI no tes-temunho de Gaspar Frutuoso e aí se manteve até 1835, altura em que foi apeado por força da mudança do regime político.
Todos os concelhos da ilha criados até à revolução liberal—Funchal, Machico, P. Santo, Calheta, P. de Sol, Santa Cruz e S. Vicente-- deveriam ser possuidores destes monu-mentos, como símbolos e espaço da justiça. Mas apenas se tem notícia e imagem dos do Funchal e de Santa Cruz. Dos demais resta a referência toponímica das vilas e cidades. Apenas do pelourinho funchalense persistiram vestígios materiais e a edilidade em 1990 fez instalar uma réplica no local de origem.

O DIA DO CONCELHO. O dia do concelho não deve confundir-se com o dia do Santo patrono da freguesia que lhe serve de sede, pois enquanto o primeiro tem uma abrangência total a todas as freguesias que integram a sua circunscrição, o segundo limi-ta-se ao espaço da freguesia. Desta forma a data mais adequada para o dia do concelho deve ser a da sua criação e não a de evocação no calendário religioso do santo patrono.
O concelho foi criado por alvará régio de 25 de Agosto de 1744. A data passou a ser valorizada a partir de 1944, com a evocação dos duzentos anos da efeméride. Sucede que a data não mereceu o interesse da vereação que se decidiu pelo dia do santo patro-no. Anote-se que as comemorações ocorreram em. Acresce ainda que durante muito tempo não estava aclarada a data exacta de criação do concelho. Na nomografia que o tenente-coronel Artur Sarmento publicou em 1944 para celebrar a efeméride na data de criação do concelho não mercê grande significado. Note-se ainda que o mesmo não publica na totalidade o referido documento, que tivemos oportunidade de encontrar e publicar na íntegra.
A partir do momento que dispomos o alvará que legitima de forma clara o momento de criação do concelho, será importante valorizar a efeméride, que de direito merece a atri-buição de "dia do concelho", sem desprimor para a celebração do santo Patrono.

«O Pelourinho da Vila de São Vicente» - Dr. Alberto Vieira

O pelourinho ou picota, era uma coluna de pedra que se erguia na praça central das vilas e que simbolizava o poder da justiça, é uma realidade do mundo português e chegou a todo o lado onde os portugueses estabeleceram vilas, como sedes de municípios. Era o símbolo da jurisdição e autonomia do concelho. Era aí que se exercia a justiça, procedendo-se à aplicação das penas de açoites ou mutilação. Ao mesmo tempo neste espaço afixavam-se os editais, anúncios e outras ordens municipais de interesse público. Postado no sopé desta coluna de pedra o pregoeiro da câmara, após o toque de caixa a chamar a população, divulgava as ordens, editais e alvarás camarários.
Até à Revolução Liberal o sistema de administração municipal expressava-se de forma simbólica pelo foral, selo e bandeira, a picota e a elevação do lugar sede à categoria de vila. Isto não aconteceu com os primeiros municípios instalados na sede das três capitanias, que ficaram subjugados ao poder dos capitães. Apenas a partir da morte do Infante D. Henrique em 1460 estes ganharam maior autonomia. Todavia a sua plena funcionalidade só acontecerá, pelo menos no caso do Funchal, com o rei D. Manuel. Foi ele que em 1486 concedeu aos funchalenses terrenos para se construir os paços do concelho e a picota.
O Pelourinho deveria estar instalado na praça defronte da câmara, mas acontece que foi instalado noutra praça, que ficou conhecida com o seu nome, e que era o principal centro de animação comercial. A primeira referência surge em finais do século XVI no testemunho de Gaspar Frutuoso e aí se manteve até 1835, altura em que foi apeado por força da mudança do regime político.
Todos os concelhos da ilha criados até à revolução liberal—Funchal, Machico, P. Santo, Calheta, P. de Sol, Santa Cruz e S. Vicente-- deveriam ser possuidores destes monumentos, como símbolos e espaço da justiça. Mas apenas se tem notícia e imagem dos do Funchal e de Santa Cruz. Dos demais resta a referência toponímica das vilas e cidades. Apenas do pelourinho funchalense persistiram vestígios materiais e a edilidade em 1990 fez instalar uma réplica no local de origem. Quanto ao de Santa Cruz sabemos da sua existência por uma gravura de James Bulwer(1827). Dos demais apenas ficou testemunho na documentação dos de Machico e Calheta, enquanto nos da Ponta de Sol e P. Santo o registo resume-se à toponímia.
O concelho de S. Vicente foi o último criado no período monárquico e por isso o último a ter direito a um pelourinho. A Revolução Liberal(1820) destronou a monarquia e implantou um novo regime político, mas foi a partir de 1835 com as transformações políticas lançadas por Mouzinho da silveira nos açores que se destruíram estas colunas de pedra. A ordem da câmara do Funchal a 3 de Novembro de 1835 é taxativa : se mande demolir o pelourinho visto ser um emblema dos
tempos feudais, e não estar em harmonia com os costumes actuais, mandando-se guardar as pedras que se tirarem.»
Quanto ao pelourinho de S. Vicente o testemunho mais evidente resulta da tradição popular que diz ter-se assim chamado o largo que existiu em frente da actual estação dos correios da vila de S. Vicente. Esta informação é apresentada pelo Dr. António Aragão em 1959 e ainda hoje persiste na memória de alguns dos vicentinos mais idosos.
A perda do rasto das informações sobre o pelourinho de S. Vicente deve-se ao facto de que toda a documentação do arquivo camarário se perdeu em 1868, por altura de uma revolta popular. A única informação documental sobre o pelourinho está lavrada num acto notarial de 26 de Maio de 1771. Este documento corrobora a tradição popular, sendo mais uma prova de que a vila de S. Vicente também teve o seu pelourinho, cuja presença física desapareceu com as transformações políticas de 1835, mas que o povo guardou testemunho na toponímia e memória oral.
O pelourinho em S. Vicente foi uma inevitabilidade do processo de administração municipal do regime monárquico e o último que se ergueu na ilha para testemunho e exemplo da justiça municipal e régia. Aqui como noutros casos a tradição não engana o erudito e historiador, encontrando o devido fundamento na documentação.
Bibliografia fundamental: António Aragão, Pelourinhos da Madeira, Funchal, 1959, Luís Chaves, Os Pelourinhos de Portugal, Gaia, 1930.

«A Importância do Norte na História da Madeira» por Dr. Alberto Vieira

A ideia vigente é de que o Norte não tem qualquer protagonismo na História da Madeira. O Norte ter-se-á mantido isolado, no esquecimento de todos até que o século XX lhe arrancou o casulo. Esta não é todavia a verdade, pois a encosta norte manteve com o Sul uma relação de íntima cumplicidade, com o comprova a História nos últimos cinco séculos. A sobrevivência do Sul foi conquistada à custa do Norte, sendo a água e o parque florestal os traços de união desse casamento. E é esta mútua cumplicidade que importa, aqui e agora, revelar.
A descoberta da ilha sucede desde princípios do século XV mas tardará muito tempo até que todo o solo seja pisado por europeus. A orografia da nova descoberta, por um lado, e as dificuldades da navegação costeira, por outro, levaram a um desenvolvimento desigual das suas vertentes norte e sul. Por outro lado é bastante evidente a inter-dependência dos dois espaços, sendo exemplo disso a água e a floresta. Ambas as realidades deixaram marcas evidentes no devir histórico da ilha. A revitalização do Sul dependeu sempre desta reserva do norte: aquífera, silvícola e agrícola
A tradição historiográfica refere, desde a década de quarenta do século XV, a chegada dos primeiros aventureiros, que desbravaram a floresta e entraram ribeira adentro. Aí ficaram votados ao isolamento e só no decurso do século XVII começaram a ganhar alguma importância. No século XVI novas freguesias haviam surgido a atestar o incremento populacional da encosta norte, fruto da pressão do movimento demográfico no sul. Ao mesmo tempo a afirmação da economia açucareira provocara o desbaste da floresta que envolvia os canaviais do sul e houve necessidade de avançar ilha adentro à procura de lenhas e madeiras. E, mais uma vez o Norte impõs a sua riqueza ao Sul, fazendo depender o seu progresso económico disso.
É precisamente nesta altura que o Norte adquire alguma
importância, começando a ser devassado e ocupado pelas gentes do sul. Desde então o Norte passa a adquirir um lugar de relevo na história da ilha, assumindo demarcado protagonismo em algumas partes. É também a partir de então que as gentes do norte tomam consciência dessa importância e buscam um estatuto sócio-político especial, alcançado após uma demorada luta, em 1744 com a criação do primeiro concelho nesta vertente tendo como sede a freguesia de São Vicente.
Desse protagonismo, fruto das condições oferecidas pelo eco-sistema, passa-se aquilo que tem nos seus naturais os principais obreiros, isto é a humanização das escarpas e margens das ribeiras. As gentes do norte destacam-se pelo seu caracter obreiro e empreendedor. Rasgaram a floresta e nela, pedra sobre pedra, ergueram um jardim de socalcos, onde as culturas de grande rendimento económico se entrecruzaram com as necessárias à subsistência dos naturais.
As dificuldades de acesso por mar e terra a esta vertente norte e os parcos recursos, para a afirmação plena da economia açucareira e viti-vinícola, definiram o secular abandono a que foi votado pelo que só raramente merece a atenção do escriba oficial. Esta região quase que não passava de uma coutada dos senhores de Machico, donde retiravam o gado e as necessárias madeiras e lenha que nos séculos XV a XVII alimentaram os engenhos do sul.

A DESCOBERTA DO NORTE
Não se sabe ao certo quando começou o povoamento da encosta norte da ilha. As dificuldades de penetração, por via marítima e terrestre, terão sido factor de ponderação para os possíveis interessados e actuaram, de certeza,como entrave à sua humanização. É provável que desde meados do século XV tenham afluído a esta encosta norte alguns povoadores que traçaram os novos povoados nas clareiras abertas. S. Vicente foi sem dúvida o primeiro logradouro, seguido de Ponta Delgada. Boaventura deverá ser lugar de assentamento muito mais recente e nunca assumiu a importância das anteriores. O facto de se encontrar a meio caminho na ligação à vertente sul pelo Curral das Freiras terá propiciado a
sua valorização.
Não obstante surgirem referências à fixação de colonos nesta área a partir da segunda metade do século XV, sómente na centúria seguinte os primeiros núcleos populacionais adquirem alguma importância, como se poderá verificar com o aparecimento das primeiras freguesias - S. Jorge (1517), P. Delgada (1552), Seixal (1552) -. A de São Vicente é referida como mais antiga, pois a tradição apresenta a data de 1440 como a da sua fundação.
S. Vicente foi, desde o século XV, o principal e mais importante núcleo de povoamento do norte da Madeira, que, por isso mesmo, teve direito a capelania, estabelecida de acordo com o número de moradores. Em face desta evidência, só a pertinácia das autoridades municipais machiquenses conseguiu iludir a coroa das potencialidades desta freguesia nortenha para assumir a condição de vila-sede de um novo município.
A criação de uma vila na vertente norte era uma necessidade cada vez mais premente em face do desenvolvimento económico e social que vinha adquirindo com o surto da economia viti-vinicola. A sua dependência em termos administrativos da sede da capitania em Machico prejudicava em muito os direitos destas gentes que tinham necessidade de aí se deslocarem para resolver as mais diversas questões. O acesso por terra ou por mar era difícil quando não impossível, ficando assim as populações desta área à mercê dos caprichos dos senhores de Machico. Deste modo a reivindicação do estatuto de vila para o lugar de S. Vicente ia ao encontro das cada vez mais incessantes solicitações das gentes da encosta norte. Este era o único processo de corresponsabiliza-las no governo da sua área e de motiva-las para o progresso da mesma.

FESTAS E ROMARIAS PARA TODA A ILHA
A afirmação do Norte estende-se também ao domínio religioso, situando-se aí algumas festas religiosas de grande acolhimento em toda a ilha.
Hoje, quando se fala na devoção religiosa das gentes
do norte vêm-nos à memória, no imediato, as romarias do Senhor Bom Jesus (no primeiro domingo de Setembro) e de Nossa Senhora do Rosário (no primeiro Domingo de Outubro). Ontem como hoje estas duas manifestações religiosas continuam a ser um dos momentos mais importantes da vivência religiosa e folia. Ontem como hoje mantêm-se como festividades regionais que fazem atraír milhares de romeiros ou forasteiros.
O Senhor Bom Jesus e Nossa Senhora do Rosário firmaram-se desde muito cedo na devoção das gentes do norte e também de toda a ilha. O Senhor Bom Jesus é a devoção mais antiga e terá surgido na ilha desde 1466 com Manuel Afonso Sanha um colono oriundo de Braga que fez transplantar para a sua sesmaria na Ponta Delgada o seu patrono. Deste modo, a primeira ermida que também fez erguer foi em sua honra. Da devoção privada passou-se à de todas as gentes do local, da encosta norte, e, depois, de toda a ilha.
A afluência dos peregrinos ao local de romagem era grande e fazia-se através dos caminhos que ligavam o local ao sul da ilha, por via de Boaventura ou de S. Vicente. Deste modo na última semana de Agosto era desusado o número de peregrinos que calcorreavam a pé as encostas íngremes. No século XX com a abertura das estradas de ligação entre S. Vicente e a Ribeira Brava e Ponta Delgada o movimento tranferiu-se para a estrada.
Na freguesia de São Vicente a principal romaria foi e continua a ser a de Nossa Senhora do Rosário. O culto é antigo mas não se sabe desde quando se tornou no centro das atenções dos romeiros de toda a ilha. Desde 1643 temos conhecimento de alguns legados de missas a Nossa Senhora do Rosário com a presença de romeiros. A festividade ganhou fama em toda a Madeira e o culto a Nossa Senhora do Rosário fazia atrair ao lugar, no primeiro domingo de Outubro, muitos romeiros. Os testemunhos disso estão nos diversos legados de missa com a obrigação da presença de romeiros.

A RIQUEZA BOTÂNICA E GEOLÓGICA
Uma das maiores riquezas desta encosta está na sua rica
e frondosa floresta. Para além do seu aspecto económico, que foi um dos factores de grande impacto na história e vida das gentes, é de salientar ao nível cioentífico o interesse que aa área desperta, pela variedade e raridade das espécies aí existentes.
É neste espírito que se enquadra a criação, em 1989, do Jardim de Plantas Indígenas da Madeira, uma iniciativa do Clube de Ecologia Barbusano que contou com o apoio do Fundo Mundial para a Natureza (WWF - Worl Wide Fund For Nature) e da Câmara Municipal de São Vicente,. Num local acessível ao grande público prosperam muitas das espécies da Laurisilva e algumas outras típicas das falésias da beira mar. O Jardim ocupa uma área de 2200 metros quadrados no interior da vila.
A transformação dos troncos em taboado era feita pelas serras de água. Este era um engenho mecânico movido a água, com vantagens sobre o sistema manual no sentido de que era muito mais rápido e necessitava apenas de um só homem. As serras de água surgiram junto dos cursos de água e das áreas onde existia madeiras suficientes para a sua laboração ou então eram de fácil acesso. A toponímia testemunha ainda hoje o local onde funcionaram algumas destas serras. Em Boaventura temos o Lombo da Serra de Água, enquanto em S. Vicente o Lugar da Serra de Baixo e a Cova da Serra Velha.
Em termos geológicos a freguesia de S. Vicente apresenta uma particularidade em relação às demais, isto é, uma intercalação calcárea marinha, que só tem caso parecido nas Ilhas de Santa Maria e Porto Santo. A exploração da pedreira calcárea remonta a meados do século XVII. A referida pedreira fora adquirida pelo vigário de S. Vicente, Francisco Pestana, que depois a doou à Confraria do Santíssimo Sacramento. Foi ele que iniciou a sua exploração, construindo nas suas imediações um forno. No último quartel do século XVIII estão documentados dois fornos: um no cabo da Ribeira do Mato, propriedade de Manuel Pestana de Andrade e outro na Vila, nas proximidades da Igreja, pertença da Confraria do Santissímo Sacramento.
Mas não se esgota aqui a sua riqueza geológica, pois também é de referenciar a existência de um grupo importante de grutas, resultantes de canais de lava,
que brevemente serão abertas ao público.

RIQUEZA PRODUTIVA
A orografia desta vertente norte e em especial da área circunscrita ao concelho de S. Vicente não configura, à partida, grandes possibilidades agrícolas. A preparação do solo para o cultivo foi uma tarefa muito árdua. Por isso, no início da ocupação esta área ficou abandonada a si própria e só ganhou importância no segundo momento pela necessidade das madeiras e pressão do movimento demográfico.
A cultura e indústria dos vimes tiveram um notável incremento a partir da segunda metade do século XIX. A Camacha, foi o primeiro e mais importante centro produtor e transformador. A Boaventura seguiu-lhe o exemplo e assumiu a segunda posição. O lugar dispunha de óptimas condições para tal: inúmeros regatos, nascentes, enfim abundância de água tão necessária aos vimeiros.
Maior interesse despertava o gado vacum pela sua dupla utilidade do estrume para fertilizar a terra e do leite para consumo doméstico ou venda. Neste último caso foi um importante suplemento da economia familiar. A venda do leite às cooperativas é uma tradição que se manteve até à actualidade. Por outro lado, tivemos a Cooperativa de Lacticínios do Norte com instalações no Sítio do Livramento, servindo-se de uma Central Eléctrica, para o efeito no Sítio do Cabouco. Com esta fábrica iniciou-se a produção industrial de manteiga que há muito já se fazia ao nível caseiro. A importância do gado vacum no concelho é testemunhada pelas inúmeras doações e legados onde é frequente a sua presença. Também a toponímia o regista: Lombada das Vacas, Achada das Vacas.
A importância agrícola da vertente norte da ilha assentou, no princípio, nas culturas de subsistência, que asseguravam as necessidades dos colonos aí instalados e um suplemento que era escoado para a vertente sul. Gaspar Frutuoso, em finais do século XVI, dá-nos conta desta situação. Assim, quando refere as duas freguesias do concelho, ainda que laconicamente, diz que em Ponta Delgada "vinhas e criações e lavrança
de pão e frutas de toda a sorte" e para S. Vicente "grandes terras de lavrança de pão, e criações e muitas frutas de castanha, noz e de outra sorte, muitas vinhas...". Em ambas as freguesias é já manifesto a importância que assumia a viticultura referindo apenas "muitas vinhas". Todavia será no decurso do século XVIII e XIX que esta cultura assumirá uma posição dominante na economia do concelho.
Foi com a cultura da vinha e cana de açúcar que o norte da ilha adquiriu alguma importância no contexto da economia agrícola. A vinha terá surgido desde muito cedo, adquirindo já em finais do século XVI alguma importância, como o testemunha Gaspar Frutuoso. A partir do século XVIII a vertente norte da ilha era já uma importante área produtora de vinho. As vinhas plantavam-se por todo o lado e cresciam entrelaçadas no arvoredo. Este sistema era conhecido como balseiras.
A área por excelência da cultura da cana de açúcar foi a vertente sul. Todavia, no segundo momento da sua afirmação na agricultura da ilha a partir da segunda metade do século XIX, expandiu-se a toda a ilha chegando às freguesias do concelho. Od vestígios de alguns engenhos de fabrico de aguardente são testemunho disso, nomeadamente em Ponta Delgada, donde Horácio Bento de Gouveia deixou memória escrita em "Águas Mansas".

AS GENTES DO NORTE
Vários foram os troncos genealógicos que aqui deitaram raízes. Gerações de lavradores, morgados, artesãos, militares, antigos povoadores deram ao concelho trabalho, honradez e nobreza de que hoje todos os seus descendentes se orgulham.
Ponta Delgada ficou conhecida como a "Corte do Norte". Isto deve-se ao facto de aí ter existido um grupo significativo de famílias importantes, com muitos interesses fundiários. Destas a mais citada é a Carvalhal. Mas outras seguiram-lhe o rasto. O importante núcleo de casas solarengas é o testemunho mais evidente disto. O mesmo se poderá dizer sobre a freguesia de S. Vicente onde surge um núcleo relevante
de casas solarengas.
De entre todos os troncos familiares do norte destaca-se a família Carvalhal da Ponta Delgada. António Carvalhal, moço fidalgo, é referenciado por Gaspar Frutuoso como "homem tão cavaleiro como esforçado por sua pessoa, nobre e magnífico por sua condição e grande virtude". A sua valentia ficou demonstrada por diversas vezes nos embates contra os corsários franceses, nomeadamente em 1566, com o assalto ao Funchal, ao reunir na encosta norte quinhentos homens para o embate. Aquando da ocupação filipina António Carvalhal trouxe do norte 300 homens que os colocou ao serviço do rei Católico entre Maio e Setembro de 1582. Um descendente seu, António Carvalhal Esmeraldo, conhecido como Aonio, foi um dos mais importantes poetas da época, deixando inéditos os seus poemas.
As gentes do Norte foram também obreiras fora de portas, destacando-se na ilha ou fora dela, como cientistas, médicos, advogados, políticos, militares, jornalistas, escritores, actores e cineastas.
São inúmeros os nortenhos que até hoje se têm evidenciado nos diversos campos, mas de entre estes relevam-se alguns pela projecção da sua obra no plano regional, nacional e, por vezes, internacional.
No campo das letras temos:
- José Júlio de Paulo e Vasconcelos, de Boaventura (1776- 1855), que escreveu um nobiliário madeirense.
- O Conselheiro Francisco António de Freitas , de Ponta Delgada(1826-1913), um destacado investigador madeirense, que não deixou obras publicadas, mas reuniu uma importante biblioteca depois adquirida pela Câmara Municipal do Funchal.
- Horácio Bento de Gouveia, natural de Ponta Delgada (1901-1983), considerado o "Aquilino madeirense" deixou uma volumosa obra literária onde traça um retrato realista da zona norte, nomeadamente da sua terra Natal, Ponta Delgada. A vivência do homem do lugar, como lavrador de cana, viticultor, ou emigrante, são um dos elementos preferidos da sua prosa.
É na política e no jornalismo que surge maior número de figuras de destaque:
- António Gonçalves de Freitas, de Ponta Delgada (1827- 1875), foi considerado pelo Padre Fernando Augusto da Silva como "um dos mais distintos madeirenses do século XIX". Várias vezes assediado com cargos de ministro apenas aceitou ser deputado pela Madeira (1860-1865).
- Manuel Maria de França, de S. Vicente (1862-1948), foi juiz de direito, empenhando-se ainda na vida política e no jornalismo, sendo fundador do jornal O Direito.
- Manuel de Sousa Brazão, de S. Vicente (1884-1923), militar de carreira, dedicou-se também à política e ao jornalismo. Em S. Tomé fundou o jornal "O Tempo".
- António Jardim Oliveira, de S. Vicente (1858-1926), cursou direito em Coimbra, foi deputado pela Madeira entre 1890-1892 e em 1917 como secretário do governo civil teve uma acção meritória ao assegurar o abastecimento alimentar às populações nesse momento de crise.
- Oswaldo da Conceição Vieira de Andrade, de S. Vicente (1892-1951), firmou-se como jornalista de Direito e Diário de Notícias e foi um dos fundadores da Casa da Madeira em Lisboa.
A par da sabedoria e pertinácia de muitos destes nossos antepassados é de assinalar em alguns o engenho, arte e ciência:
- Francisco Bento de Gouveia, de Ponta Delgada (1874- 1956), para além de se afirmar como um jornalista de renome, exercendo actividade no "Diário Popular" e "Diário de Madeira", foi um homem de muito engenho, tendo descoberto um processo de fabrico de papel a partir da folha da cana de açúcar. Ficaram, também, célebres as suas inovações eneologicas com o vinho jaquet.
Hoje todos nós fruimos do conforto da energia eléctrica
em nossas casas, mas muitos ainda se recordarão do tempo dos candeeiros a petróleo e do inefável temor da escuridão da noite. A energia eléctrica só chegou oficialmente ao concelho em 1956, mas antes disso já alguns sítios fruíram desta mágica energia através da acção empreendedora de alguns homens do concelho, que desafiaram o progresso, fazendo erguer pequenas centrais hidroeléctricas, em S. Vicente (Feiteira, Passo e Poiso) e Boaventura.
O grande desafio surgiu com o Dr. Gregório Joaquim Diniz - talvez o primeiro de S. Vicente a fazer uma licenciatura no estrangeiro, mais concretamente em Paris -, que na década de vinte do nosso século montou nas Feiteiras a primeira mini-hidrica de produção de energia eléctrica, que iluminava o sítio, fazia movimentar um engenho e serração. Para a época foi um acto de grande impacto que nós, neste limiar de fim do século, somos incapazes de avaliar. Foi a primeira e teve o mérito de dar luz a esta localidade do norte até à morte do seu promotor em 1929. Depois foi a escuridão até 1956, desfeita por outras efémeras experiências, de entre as quais se destaca o diesel da igreja matriz na vila, montado na década de quarenta pelo Padre Lira.
Esta resenha termina com a referência à sétima arte, neste ano que se comemora o seu primeiro centenário. São Vicente está ligado à revelação desta sétima arte na ilha:
- Manuel Luís Vieira, de S. Vicente (1890-1952), foi um dos mais promissores cineastas e argumentistas da primeira geração do cinema português. A ele estão ligados os mais importantes projectos filmográficos na Madeira entre 1925 e 1946.
A ele junta-se Abel Salazar Dinis, filho do distinto médico Gregório Dinis, um dos melhores operadores de camara dessa geração que filmou, por exemplo A Severa.
Note-se que S. Vicente teve desde 27 de Setembro de 1931 o seu Teatro, com a designação de Gil Vicente, propriedade de Carlos França, onde se representaram várias peças e ocorreram importantes espectáculos. Disso restam apenas alguns escombros.
A poesia e rima popular têm também no Norte alguns representantes que empareceiram com a dita geração de "Feiticeiros", que marcou a poesia popular madeirense na primeira metade do nosso século .
- João Santana Borges Filipe Correia, de S. Vicente(1911- 1938), escreveu peças teatrais, levadas à cena no Baltasar Dias, e poemas.
- O Padre Caetano António de França, de S. Vicente (1863- 1962), com o seu livro de "Trovas"(1936).
- Daniel José de França Júnior, o dito poeta popular do Lanço, cuja obra praticamente se perdeu em folhetos volantes.
Por tudo isto podemos afirmar que o Norte detem um lugar de relevo no devir histórico madeirense, firmando-se pela sua imprescindível presença no progresso da encosta norte ou por aspectos particulares das suas belezas e afirmação dos nativos ao nível da política, jornalismo, das artes e literatura.

«Manuel Afonso Sanha» - Dr. Alberto Vieira

Manuel Afonso de Sanha é considerado o primeiro povoador do lugar que mereceu o nome de Ponta Delgada, situado na costa norte da ilha e enquadrado no perímetro da capitania de Machico.
Não sabemos ao certo quando começou o povoamento da encosta norte da ilha, mas certamente que foi numa época tardia em relação ao que sucedeu na encosta sul. As dificuldades de penetração, por via marítima e terrestre, terão sido factor de ponderação para os possíveis interessados e actuaram, de certeza, como entrave à sua humanização. É provável que desde meados do século XV tenham afluído a esta encosta norte alguns povoadores aventureiros que traçaram os novos povoados nas clareiras abertas. S. Vicente foi sem dúvida o primeiro logradouro, seguido de Ponta Delgada.
Manuel Afonso Sanha, natural de Braga, teria recebido em 1466 ou 1469 terras de sesmaria das mãos do infante D. Fernando, então senhorio de ilha, de quem era escudeiro. Álvaro Rodrigues de Azevedo refere, certamente baseado em Henrique Henriques de Noronha (Memórias Seculares e Eclesiásticas…, 1722), que a doação ocorreu em 1469, sendo corroborado por F. A. Silva (Elucidário Madeirense, Funchal, 1940), enquanto um nobiliário citado por A. A. Sarmento ( Freguesias da Madeira, Funchal, 1953) dá como sendo em 1466. Só em 1552 o lugar assumiu a categoria de freguesia (=paróquia), ficando como sede a capela.
De acordo com os genealogistas, Manuel Afonso Sanha, de Portugal, era Escudeiro do Infante D. Fernando, de quem recebeu terras de sesmaria no lugar de Ponta Delgada até à Lombada das Vacas, capitania de Machico. Sabemos que terá falecido em 1 de Abril de 1507, altura em que constituiu o legado de capela. O morgado instituído englobava as terras do Ribeiro do Peso e da Ribeira do Inferno.Todavia muitos apontam o ano de 1470 como o da fundação da capela em homenagem ao Bom Jesus, o que parece provável, tendo em conta a data de fixação do mesmo. Aqui foi sepultado em 1507.
O apelido SANHA é oriundo da Galiza, mas este terá vindo de Braga onde deveria viver na primeira metade do século XV. A sua ligação ao local faz-se pela devoção ao Bom Jesus, que tem, ontem como hoje, grande devoção.
Casou com Leonor Ribeiro da qual teve vários filhos, em que se destaca Pedro Ribeiro que se concorciou com D. Mécia (ou Maria) do Carvalhal, filha de Lopo do Carvalhal, Fidalgo da Casa de El-Rei D. Manuel I. O apelido está extinto na ilha, dividindo-se os descendentes pelas famílias dos Condes do Ribeiro Real, do Carvalhal, de Torre Bela.
Hoje a notoriedade do local deve-se fundamentalmente ao arraial do primeiro domingo de Setembro. A devoção ao senhor Bom Jesus começou por ser particular e resultou da origem de um dos principais povoadores do lugar de Ponta Delgada. O culto ao senhor Bom Jesus espalhou-se rapidamente a toda a ilha. A sua invocação em momentos de dificuldade e a necessidade de agradecer a benesse alcançada através do "pagamento da promessa" conduziu paulatinamente à sua afirmação. Assim no decurso dos séculos XVI e XVII é manifesta a importância desta romaria no calendário religioso da ilha, atraindo os bispos na época de veraneio.

«A História Recente do Concelho de S. Vicente» - Dr. Alberto Vieira

De acordo com plano estabelecido em 1989 o Centro de Estudos de História do Atlântico decidiu avançar com um projecto de investigação sobre a História dos Municípios da Madeira. A ideia era envolver a sociedade civil e política com o passado histórico no sentido da valorização deste último com benefício evidente para todos. Entretanto, foram muitos os entraves que se colocaram, por elementos estranhos, à prossecução deste projecto que fizeram surgir algumas falsas imitações.
Hoje, passados mais de oito anos, não podemos considerar que o projecto tenha sido um logro, como afirmam certos sectores menos informadores que pululam no nosso meio cultural, isto é, os profetas da desgraça e do proveito próprio. Senão vejamos. Em 1994, aproveitando-se a comemoração dos quatrocentos e cinquenta anos da criação do concelho, publicou-se um volume que se apresentou já como uma amostra do projecto em marcha. No ano passado surgiu novo volume: Roteiro para uma visita e descoberta do concelho de S. Vicente. E agora fazemos todo o nosso esforço para que este novo volume seja dado à luz do dia. Afinal, a ambição de apenas um volume suplantou as nossas próprias expectativas e eis-nos agora com três e a esperança de que outros mais textos se seguirão. A história nunca deve ser considerada como um processo acabado, mas algo em permanente construção. Afinal a síntese em História não se faz do nada, mas sim a partir destes estudos parcelares que se torna possível do "puzzle" tão difícil de reconstrução do nosso discurso histórico.
S.Vicente um século de vida Municipal (1868-1974) foi um projecto ambicioso, pois pela primeira vez que se fezz uma abordagem da evolução do município num dos períodos mais recentes e conturbados da nossa História. São mais de cem anos recheados de múltiplos acontecimentos que marcaram de forma evidente a nossa contemporaneidade. Mas será que o eco disso se fez sentir nas estas encontas perdidas do norte da ilha ? Os vicentinos alhearam-se da política e agarraram-se à terra ou, pelo contrário, souberam fazer valer os seus interesses nos momentos de maior dificuldade ? Os tumultos de 1868 ou 1924 deverão ser entendidos como manifestações avulsas de um povo desordeiro ou antes a expressão de quem sabe o quer ? A estas e muitas mais questões, que pululam na mente de muitos de nós, espectadores presenciais ou por memórias orais e escritas.
Aqui, a História terminou há pouco mais de vinte anos. O vinte e cinco de Abril de 1974 inaugurou uma nova realidade que ainda é muito cedo para passar às páginas desta memória histórica. São inúmeros os protagonistas vivos. Mas será que a sua experiência, por mais lúcida que seja, permitirá entender esse processo ?. Quantas vezes nos envolvemos numa situação e fechamos olhos a tudo o que nos cerca. Certamente que a posição de afastamento poderá muitas vezes favorecer uma leitura desapaixonada e desencravar outra realidade ou então uma diferente leitura. É a oportunidade de conciliação com o nosso passado e de catarse.
São cinquenta e oito anos de conturbada vida política seguidos de outros quarenta e oito de regime ditatorial, definido pela omnipresença de um só grupo político, de um único modo de ver e moldar a realidade política. No total são cento e seis anos da nossa História Contemporânea recente. A razão de ter como ponto de partida o ano de
1868 prende-se com o facto de neste ano terem ocorrido alguns acontecimentos que ficaram a marcar de forma indelével a História do Concelho. A 12 de Abril de 1868 ocorreram tumultos na Vila de S. Vicente que levaram à total destruição de todos os documentos existentes no Arquivo Municipal, apagando-se desta forma a memória histórica do concelho. Face a esta situação torna-se difícil reconstituir o passado histórico do concelho entre 1744 e 1868. Os dados são avulsos e devem ser encontrados, qual agulha em palheiro, nos acervos documentais dos concelhos vizinhos, ou nos referentes aos fundos dos governadores gerais ou civis.
Traçar o quotidiano do município através das actas da vereação é um projecto arriscado, pois sujeitamo-nos ao empenho ou não daqueles que de forma directa actuaram para fazer passar aos vindouros uma certa realidade. Nem tudo o que acontece no concelho tem debate obrigatório na sessão camarária e muitas das questões mais pertinentes dissolvem-se no diálogo quotidiano não institucional. Analisados os cento e seis anos de vida municipal conclui-se que essa realidade dependerá sempre dos seus intervenientes, mas de modo especial ao presidente, que dirige os trabalhos, e ao escrivão ou outro qualquer a quem seja acometida a tarefa de redigir as actas. São eles o espelho duma realidade que hoje apenas se mantem na memória de alguns.
O discurso indirecto nem sempre obedece aos requesitos e exigências do historiador. A opinião, o debate são falsas realidades nesta tribuna que deveria viver disso mesmo. Perante nós desfilam páginas e páginas de sessões, ou de transcrição sumária de petições, ofícios e requerimentos. A unanimidade parece ser a palavra de ordem nos últimos cinquenta anos.
Foi nossa intenção reconstitiur essas ambiências que dominaram o passado recente da História do Concelho. A intervenção do concelho é nesta altura cada vez mais abrangente e é isso que reflectem as suas actas. Pela mesa das sessões, por intervenção directa dos municípes ou dos vereadores, passam não só os problemas do dia a dia do concelho, mas também as ambições de um progressivo desenvolvimento do concelho.
Aqui olha-se para o presente mas também para o futuro. Serão os projectos de uma adequada rede viária, de instalações adequadas para as repartições públicas e para a progressiva valorização das suas gentes com um plano adequado de escolas. A realidade de hoje evidencia que esta luta não foi inglória. O progresso sempre presente na mira da vida municipal é hoje algo evidente porque os nossos avoengos lutaram por isto nestes últimos cem anos.
Os caminhos do presente delineiam-se no passado, mas os do futuro tem por palco o momento presente. Neste contexto é a rede viária que ontem como hoje traçará esse rumo. Em 1914 a ligação do norte ao sul abriu uma nova era na História do Norte da Ilha. Agora que se avizinham novos projectos será de ambicionar por uma nova mudança, a esperança dos políticos, mas acima de tudo das populações.E esperamos no final do século poder testemunhar esta realidade.
A seu tempo surgirá a segunda parte em que se fará eco das realizações emanentes do processo iniciado em 1974. Os vinte e cinco anos são tão ricos em realizações,
debates políticos e activa intervenção das gentes, que legitimam o novo processo político.

«Boaventura, algumas notas para a sua história» - Dr. Alberto Vieira

Boa Ventura tem água
Que rega muito vimieiro
Tem muita boganga e feijão
Que vale muito dinheiro.
Versos de Manuel Gonçalves (feiticeiro do norte), Funchal, 1959.
Boaventura é hoje uma freguesia importante do concelho de S. Vicente, situação decorrente da sua plena afirmação a partir da segunda metade do século XIX. Boaventura é terra de gente ilustre e humilde, de colonos e senhorios. Uma franja de terra onde o homem se resguarda em vales amenos numa área que vai da montanha à serra.
A História do lugar reparte-se entre a riqueza dos seus recursos naturais e a sua posição no traçado da rede pedestre que ligava o Norte ao Sul. Esta última situação perdeu-a na década de cinquenta mercê do incremento da rede viária.
É este titubeante caminho pelos progressos da ilha que nos conduz a Boaventura e ao seu cada vez mais evidente protagonismo, uma vez quebradas as peias do isolamento dos seus núcleos de assentamento humano.

A TOPONÍMIA
Uma das questões que muitas vezes nos preocupa, leigos e historiadores, é a origem do nome dado aos núcleos de assentamento dos povoadores do concelho. Nem sempre as explicações apresentadas são razoáveis e por detrás da designação inicial estão, muitas vezes, aspectos que nos escapam. A toponímia é um campo aberto e muito atreito à nossa imaginação. Ontem como hoje questiona-se a origem do topónimo Boaventura.
O Pe. Fernando Augusto da Silva (Elucidário Madeirense, 1946)., cauteloso, não é capaz de apresentar uma explicação: "Qual é a grafia correcta: Boaventura ou Boa Ventura? Não o sabemos dizer, porque de ambas as formas aparece escrito este nome. A primeira parece ser a mais antiga e é sem duvida a mais comum e usual, mas no entretanto não conhecemos razões especiais de preferência para nenhuma delas. Só nos podemos perder em simples conjecturas ou em hipóteses mais ou menos engenhosas, mas talvez muito distanciadas da verdade.
Já A. Sarmento (Freguesias da Madeira, 1953) anota aquela que lhe parece plausível: "Parece que primitivamente foram terras chamadas de boa ventura, da alcunha que teve o seu povoador. E boa sorte coube a Pero Gomes de Galdo, pois, de origem castelhana e num tempo em que Portugal andava emperrado com Castela, soube haver bom quinhão de terras distribuídas no norte da Madeira. Casou com herdeira rica, obteve o cargo de juiz dos órfãos, e D. Manuel lhe deu cota de armas em 1510".
Para Maria Lamas continua o mesmo enigma: "Boaventura! Tem qualquer coisa de simbólico este nome que marcou a risonha freguesia desde a sua fundação" (Madeira maravilha atlântica, 1956.).
A História sempre nos coloca desafios inúmeros e enigmas, capazes de espicaçar a imaginação criadora de alguns dos seus construtores. Na verdade, nem sempre as questões do presente correspondem às respostas que o passado nos transmite ou pode dar. A toponímia é um campo escorregadio e capaz de provocar opiniões divergentes, como vimos.

A FREGUESIA
Boaventura deverá ser lugar de assentamento muito mais recente que Ponta Delgada e S. Vicente e certamente nunca assumiu a importância destas. Todavia, o facto do lugar se encontrar a meio caminho na ligação à vertente sul pelo Curral das Freiras terá propiciado a sua valorização. O primeiro sesmeiro terá sido o castelhano Pero Gomes de Galdo que aí fundou a capela de S. Cristóvão.
Note-se que no concelho a correspondência entre as actuais freguesias e paróquias só ficou estabelecida em 1836 com a criação da paróquia de Boaventura. Este último lugar esteve por muito tempo dependente da de Ponta Delgada e só em 1733, com a criação do curato procedeu-se à separação, ficando como sede a Capela de Santa Quitéria. Esta situação resultou de uma reclamação dos moradores do lugar ao Bispo D. Fr. Manuel de Coutinho numa visita a Ponta Delgada. Em 1817 Paulo Dias de Almeida refere o lugar como curato dependente da paróquia de Ponta Delgada, donde tardavam a lá chegar cerca de trinta minutos, por um "muito mau caminho". A afirmação plena do lugar deu-se no século XIX com a sua elevação em 1836 à categoria de paróquia, tendo como sede a nova igreja de Santa Quitéria, construída nos escombros da capela do mesmo nome. Depois disto nova paróquia só veio a acontecer em 1919 na Fajã do Penedo, onde se construíra uma igreja do Imaculado Coração de Maria.
Toda a História da localidade até ao século XIX é alicerçada na dependência da paróquia de Ponta Delgada. Assim no período que decorre até à criação do município de S. Vicente em 1744 a área dependia do município de Machico, ficando na alçada do juiz do lugar de Ponta Delgada. E esta situação perdurou por muito tempo. Somente em 1872 surge uma noiva situação, pois a criação das juntas de paróquia veio a autonomizar o lugar. Já em finais do século XVI Gaspar Frutuoso (Livro Segundo das Saudades da Terra, 1873-1979) na sua descrição das diversas localidades da ilha, apenas faz referência a Ponta Delgada e S. Vicente. Tão pouco Henrique Henriques de Noronha em 1722 faz referência, dando toda a atenção a Ponta Delgada e ao protagonismo de António Carvalhal, o homem que catapultou Ponta Delgada para uma posição de prestígio no norte da ilha.
O facto mais significativo de tudo isto é que Boaventura em relação a Ponta Delgada apresentava-se no século XIX como mais populosa e tardou muito tempo em ser reconhecida a sua importância. Para isso certamente contribuiu a dispersão populacional, a pouca capacidade ou interesse das suas gentes em reivindicar a sua autonomia em termos religiosos e políticos.

IGREJAS, CAPELAS E SOLARES
A freguesia de Boaventura apresenta no seu recinto algumas capelas e casas de inegável valor patrimonial, algumas delas já demolidas. De entre estas últimas destaca-se a Capela de São Cristóvão, demolida em 1748. A sua fundação é atribuída a Pedro Gomes de Galdo ou a um seu descendente, dono de terras de sesmaria em Boaventura e S. Jorge. Foi o primeiro templo religioso desta localidade. A esta juntam-se outras duas na Fajã do Penedo: a Capela de Santana edificada em 1768 por António Francisco de Caires e sua mulher Teresa Maria Barros, demolida na primeira metade do século XIX, e a Capela do Coração Imaculado de Maria, benzida em 23 de Agosto de 1919, e mandada fazer, pela devoção de D. Maria Margarida dos Anjos Ribeiro.
A Igreja Matriz da invocação de Santa Quitéria foi construída em 1835 no local da antiga capela. Esta capela primitiva fora construída em 1731 por solicitação dos moradores e ficou desde 1833 como sede do curato. Em 1739 foi criada a confraria de Santa Quitéria, que desde 1771 se empenhou na construção da nova igreja. Desta primeira fase deve ser o pórtico principal em rica cantaria lavrada. O tecto foi pintado em 1929, por José Zeferino Nunes (Cirilho).
No plano da arquitectura civil destacam-se dois solares: o dos Banhos, dos finais do séc. XVIII, recuperado para pousada, em 1992, pelo Senhor Silvano Jesus Teixeira, e o da Silveira, que apresenta gravado na porta de entrada o ano de 1783. Foi casa dos morgados Lício de Lagos, possuidores terras vinculadas. A tradição aponta a presença de Antero de Quental, hóspede de sua tia D. Isabel de Quental.

AS RIQUEZAS DE BOAVENTURA
A orografia desta vertente norte e em especial da área circunscrita ao concelho de S. Vicente não configura grandes possibilidades agrícolas. A preparação do solo para o cultivo foi uma tarefa árdua. Por isso, no início da ocupação da ilha esta área ficou abandonada a si própria e só ganhou importância num segundo momento pela necessidade das madeiras e pressão do movimento demográfico. Neste contexto, foi a riqueza das suas madeiras e a sua crescente necessidade para construção civil, naval e industria açucareira que perpetuaram a importância deste núcleo.

FLORESTAS E MADEIRAS. A valorização deste recurso é evidente na presença de serras de água. Este era um engenho mecânico movido a água, com vantagens sobre o sistema manual no sentido de que era muito mais rápido e necessitava apenas de um só homem. A toponímia testemunha ainda hoje o local onde funcionaram algumas. Em Boaventura temos o Lombo da Serra de Água. Paulo Dias de Almeida (1817) refere o local, nomeadamente as partes altas como cobertas de arvoredos.
Esta reserva florestal tanto era usada localmente como exportada para o Funchal. Temos alguns indícios do uso de madeiras de qualidade, vinhático cedro e pau branco, pelas populações locais na construção de mobília. Em alguns testamentos ficou
registo disso. Cristóvão Manuel Fernandes Ferreiro em 1721 surge com uma caixa de castanho, já em 1763 Manuel Pestana documenta uma outra de pau branco e em 1767 Isabel Gouveia dá conta de outra de cedro com fechadura.

O VIMIEIRO. Outro recurso de não menor importância foi o vimieiro que teve aqui junto com a Camacha um grande desenvolvimento. A tradição associa esta actividade a ambas as freguesias. Esta situação manteve-se até a actualidade, tendo na década de setenta da presente centúria um momento de apogeu.

AGRICULTURA E PECUARIA. A par disso é de salientar a agricultura, assente numa exploração de subsistência ou de exportação. Neste último caso temos a vinha e a cana de açúcar. A cana de açúcar teve na freguesia algum incremento no século XIX, surgindo em 1899 na Ribeira do Porco um engenho de António de Abreu Cardoso.
Maior interesse despertava o gado vacum pela sua dupla utilidade: estrume para fertilizar a terra e o leite para consumo doméstico ou venda. Neste último caso foi um suplemento importante da economia familiar. A freguesia apresentava no período de 1938 a 1940 doze postos de desnatação, onde intervêm 590 proprietários. O rendimento auferido é de 2.41644$39. Isso é testemunhado nas inúmeras doações e legados onde é frequente a sua presença. Em 1713 Manuel Mendes declara três vacas, já em 1778 Salvador Andrade apresentava-se com quatro vacas e dois cabritos. Note-se também a presença do gado ovino, caprino e porcino como mais um suplemento económico. Em 1721 Cristóvão Manuel Fernandes declara doze cabras, sete ovelhas, dois novilhas, uma junta de vacas e porcos. De acordo com o arrolamento do gado de 1893 a freguesia apresentava-se com 1508 cabeças de gado bovino, 4060 do porcino, a que se juntavam de gado manadio, 161 de ovino e 450 de caprino.
A riqueza do sector pecuário fica reforçada com a existência desde 1850 de uma fábrica de curtumes, fundada por Joaquim da Silva Ganança no Sítio do Lombo dos Cabos, onde se curtiam anualmente mais de cem couros.

ARTESANATO. As actividades artesanais assumem a importância adequada ao estádio de desenvolvimento de cada localidade. De acordo com informação de 1863 a freguesia estava servida de seis teares. Aí tecia-se a lã mas também o linho uma vez que são referenciadas vinte e uma gramadeiras e seis tecedeiras. A par destes tecidos note-se a importância que era atribuída aos panos de for a da terra, que surgem com certa frequência nos testamentos. Em 1766 Quitéria Ferreira de Andrade refere uma capa preta que diz ser de "nobreza" e em 1768 Maria da Silva Jardim deixa à sua sobrinha "todo o fato de vestir tanto de ir ouvir missa como de cote".

O QUOTIDIANO E O PROGRESSO
No presente século a intervenção do município foi no sentido de garantir às populações das três freguesias adequadas condições de vida. Com a aposta no investimento social: rede de abastecimento de água, electrificação e viária, ensino .

O ABASTECIMENTO DE ÁGUA POTÁVEL. O abastecimento de água é uma realidade de finais do século XIX. Até então o consumo fazia-se a partir das ribeiras e muitas levadas que circundavam as áreas agrícolas e tinham passagem obrigatória nos núcleos povoados.
A freguesia de Boaventura continuava ainda sem o serviço. Deste modo em 1903 reclama a canalização de água potável e a construção de marcos fontanários nos sítios do Ferreiro e Entrosa, na proximidade do adro da Igreja, a ser canalizada no Sítio da Fonte. Entretanto o Governador Civil em 1905 recomendava alguns cuidados em termos de saúde pública. A Vereação informa do seu empenho nisso, através da construção de marcos fontanários, para os quais faltam recursos financeiros, reclamando à Junta Geral um subsídio de 600$00 para dois marcos fontanários na Boaventura e Fajã do Penedo e 1000$00 à Junta Agrícola para outro no Sítio da Igreja. Este último foi construído pela Junta Geral mas não estava cumprindo bem o serviço, pois a água ficava "turva e aleitada" devido às regas, pelo que "não pode considerar-se potável e própria para o abastecimento, mas sim perigosa para a saúde pública e insalubre". A situação não deverá ser alheia a deliberação da Junta em proceder à entrega dos fontanários que lhe pertenciam.
O abastecimento de água a Boaventura não ficara solucionado e a partir da reclamação dos moradores parece que foi de pouco efeito o serviço prestado pela junta. Note-se que os moradores dos sítios da Igreja, Pastel e Serrão reclamavam da falta de água potável, sendo obrigados a abastecerem-se de águas insalubres e perigosas para a saúde ou procurá-las a grandes distâncias. A Câmara decide avançar com a referida canalização de água potável, contando que a oferta do projecto e das nascentes, cedidos por um grupo de moradores. O plano tem como objectivo a construção de fontanários nos sítios do Pastel, Igreja, Serrão, Fajã do Penedo, Terceira Lombada e Falca. Em 1931 estavam concluídos avançando-se com outros para a Falca e Fajã dos Vinháticos.
Se o abastecimento público através dos marcos fontanários pode ser considerado uma realidade do século XIX, o mesmo não sucederá com o domiciliário que data dos anos quarenta do nosso século. Até então o recurso era os fontanários, as levadas, ou a possibilidade, apenas para alguns, de aproveitamento dos sobejos das águas dos marcos fontanários. Outros, como José Maria Banhos de Castro Rodrigues do Serrão (Boaventura) providenciavam o seu próprio abastecimento caseiro.
Aos demais vicentinos não servidos pela rede pública de fontanários restava o recurso da fonte ou então a disponibilidade de uma bilha e um copo para serviço de água como dispunha a secretaria da Câmara. A rede aos poucos foi-se alargando. Em 1959 a 1ª fase de Boaventura ao mesmo empreiteiro no valor de 43.858$00. Nos anos sessenta aposta-se na remodelação da rede existente e na sua expansão, que em Boaventura contemplou a Achada do Castanheiro, Cabo da Ribeira.

A ELECTRICIDADE. Foi a 28 de Maio de 1956 que se inaugurou na freguesia de S. Vicente a primeira fase do projecto de electrificação do concelho. Não era a primeira vez que os vicentinos tomavam contacto com este benéfico usufruto. O
petróleo e a cera haviam já dado lugar em algumas casas pela invenção da electricidade.
A mais antiga referência à iluminação pública é de 1896. No ano imediato o serviço alargou-se até à Terra Chã, seguindo-se depois em 1904 às freguesias de Ponta Delgada e Boaventura. A Câmara adquiriu quinze candeeiros no valor de 50$000, sendo dez para Ponta Delgada e os restantes para Boaventura.
O benefício da energia eléctrica surgiu muito cedo na Madeira, pois datam de 1897 as primeiras experiências. Todavia, tardou muito tempo o seu alargamento a toda a ilha. Foi necessário chegarmos aos anos quarenta para que se avançasse com o plano, através da Comissão Administrativa dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira, criada em 1943 mas que entrou em pleno exercício de funções no ano imediato.
S.Vicente foi um concelho pioneiro na utilização do serviço, pois desde muito cedo tivemos algumas iniciativas particulares. Em Vereação apenas está documentada uma iniciativa em Boaventura para fornecimento de energia eléctrica à Igreja paroquial. Sabemos da existência pelo simples facto de a estrada municipal entre S. Cristóvão e a Achada do Castanheiro ter atravessado a conduta de água. Isto obrigou a um desvio que reverteu numa quebra de rendimento na produção de energia, pelo que o pároco solicitou uma indemnização.
A partir dos anos cinquenta chegou finalmente a energia eléctrica ao concelho e lançou-se a rede pública de abastecimento. Concluídos os quatros postos de transformação avançou-se para as freguesias de Ponta Delgada e Boaventura. Na segunda a montagem da rede em Dezembro de 1959. Esta última obra adjudicada a António Francisco dos Reis foi inaugurada pelo Governador Civil com pompa e circunstância, tendo-se queimado fogo no valor de 1 530$00.

O ENSINO. A aposta na formação das populações foi tardou em chegar ao Norte da ilha. O isolamento das diversas localidades condicionou a divulgação e afirmação do ensino escolar. A par disso os meios disponíveis para a sua promoção eram escassos. As instalações e sua conservação, a mobília, o pagamento do salário dos professores e moradia eram da competência da Câmara. Nova lei fez retornar tal encargo às Câmaras. De acordo com isto os moradores de Boaventura reclamavam em 1888 uma escola de ensino elementar do sexo masculino, oferecendo a casa e mobília. Por falta de pessoa habilitada a Câmara proveu interinamente o Padre António Alves Camacho, única pessoa habilitada para tal, no que foi confirmado pela junta escolar com ordenado de 100$000 ao ano.
Em 1947 a Junta Geral assumiu a responsabilidade, propondo a Câmara a construção de novos edifícios no concelho onde se incluía a da Fajã do Penedo. Passados dez anos avançou-se com novos edifícios de que se destaca o da Falca. Nos anos sessenta a quarta fase do plano dos centenários contempla novas escolas em Boaventura: Lombo do Urzal, Igreja, Fajã Grande.
Na década de cinquenta apostou-se de novo na alfabetização de adultos, criando-se postos a partir de 16 de Março de 1953 nas escolas femininas da Fajã do Penedo, Falca e masculina da Fajã do Penedo. A situação era também alvo de reclamação
popular, o que denota a inexistência de absentismo mas sim a falta de condições político governamentais para acabar com o problema. Em 1898 face à inexistência de uma escola do sexo masculino a vereação reconhece os "clamores dos pais que desejam educar seus filhos". Para o combater existiam as escolas nocturnas de educação popular, conhecidas desde muito cedo. Sabe-se apenas que o referido curso nocturno funcionou em Boaventura, mediante o comprovativo de uma despesa feita na compra de um candeeiro de iluminação.
Foi deste forma que se iniciou o combate ao absentismo e se iniciou a longa marcha de formação cultural das populações destas recônditas paragens. Tarefa que ainda hoje se torna pertinente e necessária.
O resultado disso está na galeria de ilustrados do norte da ilha podemos salientar em Boaventura tivemos José Julião de Paulo e Vasconcelos (1766-1859), formado pela Universidade de Coimbra que escreveu um nobiliário madeirense. Dois outros evidenciaram-se no ministério sacerdotal: os padres António Alexandrino de Vasconcelos (1791-1884) e José Joaquim de Andrade (?-1854)

A PASSAGEM DO NORTE AO SUL
A orografia da vertente norte da ilha associada às difíceis condições de aproximação da costa não facilitou a circulação de homens e dos produtos arrancados à terra. Este factor condicionou de forma evidente a evolução das freguesias e concelhos deste espaço. Em 1774 um dos grandes argumentos usados pelos moradores do norte para reivindicarem o novo município era a grande dificuldade de comunicação, por terra e por mar, com Machico. Por terra traçaram-se veredas que, através do Curral das Freiras ou o Paul da Serra, estabeleciam o contacto com a vertente norte. Somente em 1914 tivemos a primeira estrada de ligação ao Funchal pela Ribeira Brava que em 1928 foi alvo de um alargamento para se ajustar à circulação de viaturas. Hoje o sistema viário em progresso tende a esbater essa distância
A ligação do Norte com o Sul tinha nas serras de Boaventura um acesso privilegiado. Mas veredas eram de difícil circulação para as mercadorias e pessoas, pelo menos assim o reclamava em 1817 Paulo Dias de Almeida: "e daqui se atravessa a ilha passando ao Curral das Freiras, cujo caminho é péssimo, por escabrosos rochedos até ao Alto das Torres …". E, por isso o recurso mais usual, até ao aparecimento da primeira viatura motorizada, foi o mar. Através dele traçou-se uma rede de comunicações entre as várias localidades. Os ditos "barcos de carreira" eram o elo de comunicação entre os diferentes portos costeiros. Esta deveria ter sido a irreversível opção dos primeiros colonos que se fixaram na costa norte. Mas até mesmo aqui as possibilidades da freguesia eram limitadas. Tal como refere Paulo Dias de Almeida (1817) " O porto desta povoação é na boca da Ribeira da Boaventura, mau porto e com muitos penedos mergulhados." Esta, conhecida como a Ribeira do Porco, é uma das duas ribeiras que sulcam a freguesia.
A situação viária da ilha pouco mudou até finais do século, pois na década de noventa Carlos Faria (Recordações da ilha da Madeira, 1945) refere que este caminho era "muito mau, mas muito interessante pla verdura e grandes árvores da encosta bastante aprumada", sendo a frequência habitual de estrangeiros. A mesma ideia surge em C.
A. Power ( Tourists guide to the island of Madeira, 1914), que não se cansa de referir o magnífico cenário que a natureza propiciava entre as Torrinhas e Boaventura. Aqui uma viagem em rede poderia custar vinte dólares, enquanto em cavalo poderia ir até trinta dólares.
Até ao actual estabelecimento da rede viária, que cada vez mais avança para o progresso no encurtar das distâncias, passou-se um sinuoso percurso na aproximação da vertente norte ao sul. O aparecimento do automóvel e a definição da rede viária são uma conquista do nosso século. Até que isso sucedesse a costa norte manteve-se como um local de perdição, quase inacessível aos mortais. Atingir estas faldas montanhosas só a pé, a cavalo ou em rede, pois o barco era e continua a ser um meio pouco eficaz. Além disso, os caminhos eram sinuosos e de grande insegurança para os visitantes e insulares. Daqui resulta o seu quase total esquecimento até que a primeira estrada em 1914 a ligou ao Funchal. Depois foi a abertura, em 25 de Junho de 1953 do túnel que liga ao Arco de S. Jorge.

O TURISMO RURAL
A descoberta das potencialidades turísticas da encosta norte não é só deste final de século, pois começou a delinear-se a partir da centúria oitocentista. Foi nesta época que o norte se abriu aos estrangeiros, que o devassaram em intermináveis passeios calcorreando veredas e levadas. O testemunho abonatório desta descoberta está materializado em algumas gravuras e textos apelativos ao deleite de novos aventureiros e descobridores desta virginal natureza.
É precisamente a partir da década de cinquenta que temos um número avultado de visitantes e testemunhos reveladores da descoberta do norte. Em 1851 Edward Harcourt (A Sketch of Madeira) diz que não podia sair da ilha sem ter este encontro com o cenário deslumbrante do norte, o que concretizou num passeio feito pelo Curral e regressando por Boaventura.
Em Boaventura louva-se a beleza agreste da paisagem, indescritível na voz do escritor e poeta. S. Peacock (A Treatise of the Climate and Meteorology of Madeira.1850) define Boaventura como um vale romântico. Para E. Wortley (A Visit to Portugal and Madeira. 1854) "é o mais belo cenário que alguma vez viu", não sendo por isso fácil de o testemunhar em palavras.
Para A. Marsh (Holiday Wanderings in Madeira, 1892) aquilo que mais desperta a sua atenção é a pobreza dos seus moradores, na sua maioria vivendo como colonos. Aquilo que mais admira o visitante é a forma de estrutura da sociedade, onde o dinheiro não circula. Aqui tudo se troca por forma directa na feira dominical no centro do povoado. É o dia de trocas, mas também de danças e cantares..
Para corresponder a tão insistente procura começou a delinear-se um serviço de apoio através das vendas. Após mais de sete horas de cavalo o viandante precisava de um sítio para repousar e comer. Em Boaventura é assinalado apenas a venda de Manuel Carvalho. Esta é já referenciada por James Yate Johnson (Madeira…,1885). Aqui alojou-se A. J. Drexel Biddle (Madeira Islands, 1900) por 9900 réis. A esta junta-se em 1896 Manuel Pereira da Silva, morador no Lombo do Urzal refere que " presta em
casa, que é a última próxima da serra, auxilio aos transeuntes que por ali passam, fornecendo-lhes comida e bebida...", por isso mesmo pede a isenção no pagamento dos impostos sobre as bebidas que vende pois, caso contrário, acabará com a venda. A Câmara sabendo da utilidade do serviço despachou de modo passível o pedido.
Hoje a realidade é outra. As vendas deram lugar às pousadas em antigas casas senhoriais. As veredas cederam espaço às estradas asfaltadas, de modo que os caminhos que comunicavam com o Funchal servem apenas os amantes da natureza.
Foi certamente esta função de apoio à circulação de naturais e visitantes que fez com que este local assumisse a importância que acabou por adquirir a partir do século XVIII. A importância da via levou à fixação de gentes desde a orla litoral até ao cimo da encosta. Em torno do circuito estabeleceram-se núcleos de povoamento e pólos de desenvolvimento agrícola que usufruíram desta situação.

BOAVENTURA OU BOA VENTURA
Boaventura, pelo que acabamos de enunciar parece ter sido terra bem aventurada para aqueles que souberam desafiar o isolamento os declives das encostas e a densidade do arvoredo. Todo o vale teve até à abertura da rede viária para os automóveis um papel fundamental na aproximação do Norte ao Sul. A presença de forasteiros nacionais e estrangeiros parece ter sido uma constante. A proximidade de Ponta Delgada envolveu o lugar nas festividades do Senhor Bom Jesus através da passagem e alegria contagiante dos romeiros. Tudo isto mudou com o lançamento da rede viária a partir da década de quarenta, o que veio a provocar o isolamento das zonas altas, que só há alguns anos se reabriram de novo.
Boaventura é na verdade terra de boa ventura….

Alberto Vieira

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