
Rui A. Costa Oliveira
Centro de Estudos em Ciência das Religiões
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De facto, deve-se a este médico escocês a iniciativa de implantar uma comunidade protestante em território português – na ilha da Madeira, entre 1838 e 1846 – e, no Brasil, o estabelecimento da primeira igreja protestante com serviços religiosos em língua portuguesa, entre 1855 e 1876.
Robert Reid Kalley nasceu em 1809, na Escócia. Estudou Farmácia e Medicina, em Glasgow, donde saiu diplomado em Cirurgia e Farmácia, em 1829, e, doutorado em Medicina, em 1838. No ano seguinte, foi-lhe reconhecida, através de defesa de tese, a competência médico-cirúrgica, pela Faculdade de Medicina de Lisboa e, em 1859, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
Os seus pais – Robert Kalley e Jane Reid Kalley – eram comerciantes bem sucedidos de Glasgow e membros dedicados da Igreja Livre da Escócia (Presbiteriana). Ficou órfão de pai, ainda antes de completar 1 ano de idade, e perdeu a mãe aos 6 anos, tendo ficado a cargo do seu padrasto, David Kay, homem também devotado à Igreja, que lhe dispensou cuidados iguais aos dos filhos do seu anterior casamento.
Aos 16 anos, Robert Kalley entrou na Universidade e, a partir de então, enveredou pelo mais absoluto agnosticismo. São estas palavras que, no seu diário, dedicou a este período da sua vida:
Os tempos que se seguiram à conversão foram vividos com aquela intensidade que se conhece das grandes paixões, quando o coração e a mente humanas parecem não consentir limites na extravasão da alegria que os acomete. Para o Dr. Kalley, a Inglaterra tornara-se pequena para se expandir e pôr em prática os planos de missionação que o coração lhe ditava e, então, resolveu partir em missão para a China. Porém, viu-se constrangido a adiar esses planos, em virtude do surgimento de problemas com a saúde da esposa.
Neste ponto, convém esclarecer que a Sociedade Missionária de Londres, a quem Kalley submetera a sua disponibilidade para a missão, em resposta, lhe recomendou que, enquanto se organizava a viagem para a China, «procurasse aprofundar os seus conhecimento em alguns ramos da ciência médica e da Teologia» 3 e encaminhou-o, então, para a Universidade de Glasgow. Mas, algum tempo depois, ao saber das intenções de Kalley em contrair matrimónio com Miss Margareth Crawfor de Paisley, considerada uma jovem de precária saúde para enfrentar a vida de missão, o que poderia vir a prejudicar não só o trabalho do marido mas também acarretar despesas extras à Sociedade,
Após a chegada à Madeira, e enquanto a esposa recuperava a sua saúde, o Dr. Kalley passou a dedicar-se à comunidade inglesa ali residente. No entanto, passados os primeiros tempos da adaptação, e constatando que os ingleses da ilha já tinham ao seu serviço dois médicos, enquanto que as populações locais viviam no maior abandono sanitário e num atraso cultural pungente, a pouco e pouco, passou a adiar os anteriores projectos para a China e a dar prioridade à ajuda na resolução dos problemas que o rodeavam: a pobreza, a promiscuidade, o alcoolismo, a iliteracia e a superstição. Em carta dirigida à Assembleia Livre da Escócia, explica a decisão do adiamento dos seus projectos anteriores, colocados em segundo plano, perante o novo quadro com que se deparava:
Seguiu-se uma intensa campanha de luta contra o alcoolismo, apoiada com diversa literatura mandada vir de Inglaterra, e que fez espalhar por toda a ilha, onde se explicavam os malefícios do álcool e se ensinavam as terapias para combater a sua dependência. Simultaneamente, e impressionado com a elevadíssima taxa de analfabetismo, deu começo a uma campanha de alfabetização, concretizada na criação de escolas domésticas, para as quais convidou diversos professores.
Nessas escolas era ministrado o ensino elementar, sendo as aulas diurnas, para as crianças, e, nocturnas, para os adultos. As adesões a esta iniciativa foram de tal forma inesperadas e espectaculares 7 que, em pouco tempo, já havia dezassete escolas com mais de oitocentos alunos. Calcula-se que, entre 1839 e 1845, tenham sido frequentadas por mais de dois mil e quinhentos alunos.8
Aliado ao esforço de alfabetização estavam os propósitos de missionação e, sob um bem esquematizado programa pedagógico, muitos alunos estabeleciam os primeiros contactos com as letras através da leitura da Bíblia. E, à medida que o adestramento na leitura e na escrita se solidificava, assim crescia o entusiasmo pela descoberta dos textos sagrados, com cada vez maiores adesões, como nos dizem as Notas do Dr. Kalley:
Aquele povo, faminto de saúde, de educação e de cuidados, e, de certa maneira, desgostoso das suas instituições que pouco correspondiam aos seus anseios e necessidades, surgiu aos olhos do Dr. Kalley como o bíblico «rebanho sem pastor». Encetou o trabalho de congregação dos simpatizantes, fidelizando-os à fé reformada, em assembleias muito concorridas e participadas 10, onde os cânticos e a música desempenhavam um especial papel, com impacte profundo na pequena sociedade insular:
Como seria de prever, não tardaram as reacções adversas a tanto sucesso, por parte de responsáveis das instituições locais político-religiosas postas em causa, que começavam a sentir os efeitos da censura subliminar aos órgãos de poder, acusados da precariedade de vida, e a erosão que tomava conta dos fiéis do Catolicismo atraídos, cada vez mais, por práticas religiosas mais próximas das suas vidas.
Começaram as ameaças e as perseguições, além da propaganda de desacreditação de Kalley, com o consentimento e a instigação do Governador da Ilha e de alguns clérigos católicos, que culminou com o seu encarceramento durante seis meses e a prisão e espancamento de muitos dos seus seguidores13. Sucediam-se as pressões governativas e eclesiásticas e os assaltos imprevistos e indiscriminados por instigadas arruaças populares, que actuavam acobertados pela impunidade que os «ouvidos moucos» e as «vistas largas» das autoridades permitiam.
No auge da reacção, os Kalley viram a sua casa assaltada e os seus pertences atirados à rua e queimados, e tiveram de se refugiar – o Dr. Kalley a bordo de um barco inglês ancorado no Funchal, para onde foi conduzido sob disfarce, e a esposa, em casa do cônsul inglês.
Segundo as informações oficiais da época, a «heresia calvinista» parecia erradicada, pois já não se conhecia ninguém que defendesse as ideias da Reforma. No entanto, de vez em quando, surgiam sinais de que a realidade não correspondia bem ao que se pensava, pelas declarações, por exemplo, de um grupos de madeirenses chegados a Illinois, em 1853, que declararam que havia pelo menos mil habitantes da ilha que se mantinham fiéis ao Protestantismo.
Sabe-se hoje que, efectivamente, assim era, pois apesar de se manterem bem vigiados os movimentos suspeitos, sempre encontraram meios de realizar alguns cultos e de fazer oração bíblica comunitária 16. Trinta anos depois, porém, e devido a novas condições políticas, foi possível reactivar a missionação protestante na Madeira, pois, até aí, a Igreja da Escócia (ou a Sociedade Missionária de Londres) deixaram de apoiar qualquer iniciativa que afectasse as relações com Portugal e afrontasse a Igreja oficial, ou pusesse em perigo a segurança dos ingleses que viviam na ilha, para os quais, no entanto, continuavam a nomear pastores para os seus cultos, unicamente em língua inglesa.(...)
4 IDEM, ob. cit., p. 24.
5 Actas da Comissão Examinadora, l. 7, p. 379, Sociedade Missionária de Londres, a 30 de Janeiro de 1838, apud Michael P. TESTA, ob. cit., pp. 23-24.
7 Este trabalho foi tão notório que mereceu das entidades oficiais um público louvor, em Actas da Câmara do Governo Municipal da Cidade do Funchal, do dia 25 de Maio de 1841, em que o Dr. Kalley era nomeado como «o bom doutor inglês» e o seu trabalho era caracterizado como «esforço filantrópico em favor dos pobres, doentes e analfabetos» (cf. ob. cit., p. 34).
8 Cf. ob. cit., pp. 30-31.
9 Michael P. TESTA, ob. cit., pp. 32-33.
11 IDEM, ibidem, pp. 35-36.
12 B&FBS, Forty-First Report, 1845, p. 94, apud David G. VIEIRA, O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil, 2.ª ed., Brasília, 1980, p. 114.
13 A prisão do dr. Kalley, ao abrigo de uma lei contra a heresia, de 1603, levou também para a prisão cerca de três dezenas dos seus seguidores, dos quais um chegou a ser degredado para a Angola [José Ferreira Lomelino, e outro, uma mulher, Maria Joaquina Alves, mãe de sete filhos, viu a sua condenação à morte transformada em dois anos e seis meses de prisão. (Cf. Luís Aguiar SANTOS, «A transformação do campo religioso português», in História Religiosa de Portugal, coordenação de Manuel Clemente e António Matos Ferreira, 7 vols., s/l, 2000, Círculo de Leitores, III vol., p. 450; e M. TESTA, ob. cit., pp. 43 e 53.)
15 Segundo opinião de alguns historiadores e sociólogos, esta encarniçada perseguição político-religiosa,
naquela época, só é explicável devido à instabilidade política e social por que Portugal passava. Durante cerca de dez anos, a que corresponde o período da agitação da Madeira, viveram-se em Portugal momentos de grande turbulência política que oscilaram entre o máximo laxismo institucional, provocado por inúmeras revoltas e golpes militares, e a mais férrea ditadura que caracterizou muitos dos governos de Costa Cabral. A tudo isto há que acrescentar a evolução por que passaram, também, as relações da Igreja Católica com o Estado que variaram entre a popular contestação até à aproximação da Igreja e do Liberalismo, celebrado com o reatamento das relações diplomáticas entre Lisboa e a Santa Sé, em 1841-42, de que resultou a retoma do poder eclesiástico e o acerbamento de posições das suas alas mais reaccionárias e comprometidas politicamente, para quem a harmonia e a unicidade nacional exigia uma única religião para um único reino. Por parte da Grã-Bretanha, também não se pode desvalorizar o efeito do relacionamento um pouco afectado entre a Igreja oficial (o Anglicanismo) e a Igreja Livre da Escócia (tida por dissidente do Presbiterianismo oficial escocês) a que pertencia o Dr. Kalley, e que talvez explique o tardio apoio que este recebeu, além das políticas conciliatórias que sempre foram oficialmente defendidas. (Cf. Luís Aguiar SANTOS, ob. cit., p. 450-451; História de Portugal em Datas, António Simões RODRIGUES (coord.), s/l, 1994, Círculo de Leitores, pp. 332-342.)
16 Foram especialmente apoiados, nestes casos, pela capelania presbiteriana do Funchal, tolerada porque estava formalmente constituída para apoio religioso dos residentes estrangeiros. (Cf. Luís Aguiar SANTOS, ob. cit., p. 450.)






19. Astronomical tables in Abraham ben Samuel Zacuto, Almanach perpetuum, Venice, 1502.
20. Armillary sphere in Francisco Faleiro, Tratado del esphera y del arte del marear, Seville, 1535.
31. Jerónimo Osório, De Rebus Emmanuelis regis Lusitaniae..., Lisbon, 1571.
32. Jerónimo Osório, Hieronymi Osorii Lusitani, Siluensis in Algarbiis episcopi; de rebus; Emmanuelis regis Lusitaniæ..., Cologne, 1574.
33. Cinnamon bark in Garcia de Orta, Aromatum, et simplicium aliquot medicamentorum apud Indos Nascentium Historia, Antwerp, 1567.
34. Peppercorns in Garcia de Orta, Dell’ historia de i semplici aromati, el altre cose che vengono portate dall’ Indie Orientali pertinenti all’uso della medicina, Venice, 1589.
35. Pineapple in Cristóvão da Costa, Tractado delas drogas y medicinas de las Indias Orientales, Burgos, 1578.
36. Banana palm in Cristóvão da Costa, Traicté de Christophe de la Coste..., Lyon, 1602.